AMOR PRETO CIRCULAR

 

por Jéssyca Diniz

DESCANSAR a cabeça num peito PRETO…
Descansar o sorriso num BEIJO preto…
Descansar o abraço num ABRAÇO preto…
Do amor, do AMOR, pois ele chegou!!!

Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Que chegou, me saudou, e me RESPEITOU…

Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Me saudou, minha mão beijou, e me ACALENTOU…

Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Me saudou, minha mão beijou e me TRANSBORDOU…

Essa é a história do AMOR DE PRETOS…
Essa é a história do AMOR DE PRETOS…
Que LUTOU, SE TRANSFORMOU E PRA SI VOLTOU…

…OURO PRETO CIRCULAR… 🖤

Como é boa e tranquila a sensação de voltar a perceber que ainda sei escrever, que ainda sei me escreviver… Que ainda posso escrever… E mais ainda, que consigo e vou conseguir compartilhar… Tudo dará certo… Força, aponta para fé e rema…

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25 de julho dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e de Tereza de Benguela

Em comemoração ao dia Internacional da Mulher Negra Latino Americano e Caribenha e de Tereza de Benguela o Grupo de Mulheres Negras do Cariri Cearense – Pretas Simoa visando a urgência e necessidade de discutir as questões que afligem as Mulheres Negras das mais diversas formas e circunstâncias propôs a realização do evento Mulher Negra X Agressividade que buscou ser um espaço de discussão e reflexão crítica sobre diversas experiências que tendem combater o racismo, sexismo e violências correlatas, em especial no que se trata as Mulheres Negras.

O evento trouxe:

  •  Exibição do filme “For Colored Girl” seguido de debate
  • Fala Preta: Mulher Negra X Agressividade;
  • Carolinas e outras Marias: oficina de amor Femini-na-mente-negra;
  • Mulher Negra no Hip Hop: Bgirl Daiany e Bgirl Vanessa;
  • Sarau das Pretas

Fotos: Ricardo Alves

ALEGORIA DO CATIVEIRO

Por Karla Alves

A “pretinha” de casa eu gostava de ser
Mimos, carinhos, dava até gosto de ver
De repente almas penadas
Na TV e nas escolas projetadas
Me fizeram a cabeça
E me gritaram “obedeça”!
Alisei cabelo
Tive vergonha do espelho
No cativeiro mental era tudo tão claro
Que de tanta dificuldade pra ver tive que ir pelo faro
Beirei a porta já um pouco torta de tanto me curvar
Mirei Dandara, Mahin, Simoa, Zumbi
Um monte de gente Preta, alarmada, eu vi
Escureci minha visão
Com Lima Barreto, Beatriz e Conceição
Considerei alto o precipício
Mas me lancei na escuridão
Cativeiro nunca mais!
Não me ofereçam pombo da paz
Que nas esquinas é que o despacho se faz
Mas sabe como é que é encruzilhada…
Te leva pro horizonte ou pra uma cilada
Então segui, mas fui cabreiro
Me liguei de cara que ali era o antigo cativeiro
Com aquelas vaidosas e estúpidas almas penadas
Todas alvas, ilustradas
Ensinando obediência
Ao povo preto que pedia clemência
Daí gritei: ei mano, sai dessa letargia!
Os mano disseram: mas como, se aí é noite e aqui é dia?
É tudo engano, essa cena se repete – eu falava
Mas a luz de lá de dentro encandeava
No interior as almas porcas grunhiam em coro:
“louca, agressiva”, me acusando de imenso desaforo.
Pra se manter no poder
Eram habilidosas em confundir e esconder
Pela “verdade seduzida” conquistavam
Pegavam nossas próprias armas e contra os irmão preto usavam
Mas não esperavam por minha CORvicção
Bolei um plano e logo pus em ação
Voltei por cada esquina que passei
E pedaços de espelho do chão eu apanhei
Com eles construí um escudo
Retornei ao cativeiro me fingindo de mudo
As almas penadas logo me deram como morta
Aproveitei a distração e estendi o meu escudo na porta
Chamei os prisioneiros a seguirem minha voz
Mas é difícil se erguer tendo à sua frente um algoz
Gozando privilégio e discursando “irmandade”
Almas pálidas que os prisioneiros julgavam por divindade
Junto comigo muitos outros Pretos vieram ter
Lá de fora gritávamos: corre até o espelho pra se ver
As almas porcas bradavam
Obediência e submissão ordenavam
Mas os prisioneiros erguidos cobravam a verdade
Chorando as almas toscas apelaram pra piedade
Mas aí, barão, já era!
O choro é livre e eu sei que tu supera
Fica sabendo que Preto consciente é forte
Não teme à vida e nem sequer à morte
Não vem com apelo de moça frágil e demente
Pois no teu verbo o chicote ainda é evidente
Conheço tua ginga, melhor não me subestimar
“quem não pode com a mandinga não carrega o patuá”
Desobediência epistemológica e existencial
Essa é a nossa meta, esse é o meu ideal.

Violência acalentada

mulhernegrafinal

imagem da internet

Um nojo invadindo o peito

O incomodo de não dizer não

O lençol de culpa que me cobre o sexo

Por mais tempo que eu poderia imaginar

Um mar de ondas ao contrário,

É assim meu sexo

Invadido!

Meu silêncio de vergonha e descredibilidade

Hoje protetora de fêmeas

A memória ainda dói

Me move a lutar

A soltar o verbo.

Denunciar! Denunciar! Denunciar!

Mesmo deslegitimada

Pelo sexo que outrora eu não compreendia como diferente

Mas que hoje

Percebo as pérolas a enfeitar – lhe

As mesmas que me ejaculam cuspe

E com dedo e pênis rijo me acusam devassa.

Logo eu…

Negra de amor singular

Abortado de brutalidade ao sexo silenciado

De um sexo cuja amnésia coletiva

Impõem a dissimulação da violência acalentada.

 Karla Alves/Dávila Feitosa

AH, SE EU TIVESSE ASAS… OU, PROGRESSO DAS BESTAS

Por Karla Alves

-Dedico este texto aos meus professores de Historia da URCA, com exceção de três apenas. Mas especialmente a um casal de palermas que aplaudem a imbecilidade um do outro.

Eu vi o trem…

Com vagões cheios de animais enjaulados e confortavelmente adaptados às suas condições. Alegremente iam os animais guiados por um maquinista robô secularmente programado para alcançar sua estação segura dentre limitados portos-seguro, onde havia a promessa de conceder asas a quem lá conseguisse chegar.

Ao lado da locomotiva, cavalos sem selas nem viseiras acompanhavam o trajeto do trem, acreditando que este os levaria ao sobre-solo de onde se podia ver com segurança o resto do mundo e onde haveriam de se tornar cavalos alados; a mais alta patente para a categoria dos cavalos ilustrados.

Oito estações percorria o trem até alcançar o seu destino. Em cada uma destas estações pairava a insegurança e o medo entre os comprimidos e irracionais passageiros de que o maquinista mecanizado e indiferente viesse a esquecer-se de algum animal e seguisse o seu percurso abandonando o pobre bicho ao seu próprio destino.

Eu mesma, como ovelha mansa que fui, tive o desprazer de ser esquecida na estação terceira, onde me abandonei por longos quatrocentos anos para dar à luz a uma pantera. Mas como cordeiro pode procriar um felino? Eu me perguntava sem encontrar esta ou qualquer outra resposta na estação superlotada de esperançosos. Foi então que percebi que a estação era gerenciada por um albino tutor arrogante que se considerava dono da estação, do trem, dos trilhos e até mesmo do maquinista robô e do seu itinerário. “É um estúpido”, eu julguei. Mas os outros animais, ovelhas como eu, o aplaudiam de pé, inflando ainda mais as convicções estapafúrdias do tutor dono do mundo ( para este o mundo não ultrapassava as fronteiras do seu próprio umbigo).

Larguei-me a pensar se nas demais estações ocorria o mesmo processo, pois nas duas anteriores em que havia passado não tinha observado com suficiente atenção para perceber qualquer situação. Dei-me conta de que se não tivesse sido abandonada (por descuido ou destino) naquela terceira estação talvez passasse pelas posteriores sem lhes prestar a mínima observação.

Foi em meio a estas reflexões que escutei o barulho da engrenagem enferrujada se aproximando da estação terceira. Era o trem!!!

Resoluta, me apressei a entrar e chorei ao saber que meu pequeno felino não poderia me seguir. Acenei e parti com ansiedade em dedicar minha atenção para as demais estações a que me destinava, onde os tutores como lobos famintos tentavam nos agarrar às patas para fazer de nós suas eternas presas. Não havia, então, me dado conta do quanto as experiências na estação terceira, em que estacionei a vida, tinham modificado a estrutura do meu ser. Não me adaptava mais à minha antiga jaula e, por este motivo, era constantemente repreendida pelos “bichos-comedores-de-espelhos” que doutrinavam em cada vagão os passageiros do trem com chicotes no lugar da língua e palavras hipnotizantes que não me surtiam mais efeito.

Foi lá pela altura da sexta estação que um “bicho-comedor-de-espelhos” cochichou para um tutor “dono do mundo” sobre o meu comportamento inadequado para àquela ordem do rebanho. O tutor, na sua doutoral missão de me fazer voltar à condição de ovelha, me repreendeu chegando a xingar-me de “agressiva” e, como diria um escritor negro jamais lido em qualquer das estações, eu “nunca imaginei que um insulto pudesse ir tão longe na nossa natureza”.
Corri para a locomotiva e me deparei com meu próprio reflexo no espelho do retrovisor ainda não comido pelos “bichos-comedores-de-espelhos”. Não me reconheci de imediato e tive que fazer diversos movimentos repentinos para me certificar de que o reflexo no espelho corresponderia aos meus gestos. Foi aí que finalmente compreendi: Eu sou uma pantera. Num impulso saltei subitamente do trem em movimento, herdando por isso algumas cicatrizes, e me pus a correr entre os cavalos que, desgarrados, queriam ser alados.

Cheguei, em fim, na oitava e última estação, sem surpresa ou alegria.

Não haviam asas, mas vaidades que, como ópio, simulavam voo.

Permaneço a correr, agora solitária, para continuar a subir horizontes sem me distanciar do chão.

Foto: Nívea Uchôa

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