Sexismo

Violência acalentada

mulhernegrafinal

imagem da internet

Um nojo invadindo o peito

O incomodo de não dizer não

O lençol de culpa que me cobre o sexo

Por mais tempo que eu poderia imaginar

Um mar de ondas ao contrário,

É assim meu sexo

Invadido!

Meu silêncio de vergonha e descredibilidade

Hoje protetora de fêmeas

A memória ainda dói

Me move a lutar

A soltar o verbo.

Denunciar! Denunciar! Denunciar!

Mesmo deslegitimada

Pelo sexo que outrora eu não compreendia como diferente

Mas que hoje

Percebo as pérolas a enfeitar – lhe

As mesmas que me ejaculam cuspe

E com dedo e pênis rijo me acusam devassa.

Logo eu…

Negra de amor singular

Abortado de brutalidade ao sexo silenciado

De um sexo cuja amnésia coletiva

Impõem a dissimulação da violência acalentada.

 Karla Alves/Dávila Feitosa

EI, PSIU, DÁ LICENÇA QUE O CORPO É MEU!

Uma análise da representação social do corpo da mulher negra.

Muito se questionou sobre “qual o problema” com a série global “Sexo e as nêga”, havendo inclusive uma estratégia apelativa de fragmentação da problemática que, ao dividir a pergunta em “é o sexo” (?), “é as nega” (?), recorre ao velho artifício de separar para enfraquecer, pois o problema não se encontra no significado isolado de cada termo já que é a associação de um termo ao outro que conota a carga histórica de opressão sobre o corpo da mulher negra no Brasil revelando, ainda, uma conformação social no que se refere à nossa imagem, uma vez que o nosso protesto é que vem provocando desconforto em boa parte do país do “Somos todos macacos”, que é incapaz de perceber a insistente lembrança do cativeiro propagada pela mídia.

Embora o panorama não se deixe aprisionar por apenas um dos termos, isolado em seu significado, vale destacar que o sexo é aqui apresentado como modelo de sociabilidade que, ao ser associado ao termo de cunho pejorativo “nêga”, revela uma das especificidades do racismo à brasileira em seu caráter não oficial: negado publicamente, mas praticado na intimidade.

Não se trata apenas de uma crítica à mídia brasileira, mas ao pensamento social reforçado pelos estereótipos apresentados em programas como o da Rede Globo, uma vez que a análise sobre a representação social do corpo da mulher negra possibilita entender a estrutura de uma sociedade.

Porque a vinculação entre sexo e mulher acontece com mais frequência com a mulher negra? Porque a mídia se sente mais a vontade para fazer esse tipo de vinculação? Acontece que admitir o título do programa em questão como racista é ter que se admitir propagador dessas mesmas ideias, pensamento este que gira em torno do lugar social estabelecido para a negra e que é muito bem reforçado pela mídia. Quem nunca ouviu uma mulher atingida em seu pudor retrucar a ofensa com a frase “me respeite que eu não sou tuas nêgas”? O que faz esta sociedade pensar que com as “nêgas” se pode tudo, inclusive ofender? Qual o problema com as “nêgas”?

O problema é que a carga histórica sobre este termo o torna uma semântica opressiva e, portanto, impossível de ser encarada como uma expressão neutra. Por isso não adiantaria simplesmente substituir o termo por outro para sanar a questão. Não adiantaria, por exemplo, substituir o termo “nêga” no título da série por “sexo e as deputadas” ou “sexo e as advogadas”, pois estes são exemplos socialmente concebidos como sujeitos e, portanto, com uma carga valorativa positiva. Ao contrário, o termo “nêga” (que nunca foi concebido como sujeito) se refere não só a uma cor de pele, mas se caracteriza como um adjetivo depreciativo e ao ser publicamente propagado revela as sutilezas perversas do cotidiano de uma sociedade fundada na cultura de negação do racismo, o que impossibilita discutir o problema com seriedade.

A antropóloga Lilia Moritz Schwarcz em seu artigo intitulado “Gilberto Freyre: adaptação, mestiçagem, trópicos e privacidade em Novo Mundo nos trópicos” (2010), confronta diversos aspectos acerca das relações sexuais entre Senhores e escravas no Brasil colônia apresentados por Gilberto Freire e irá concluir que o Brasil é um país dependente do cativeiro negro, uma vez que a relação sexual entre o senhor e a escrava se devia a circunstâncias históricas (como, por exemplo, a insuficiência de portuguesas frente ao numero de portugueses que aqui habitavam) e não ao suposto “afeto” apresentado por Freire. Já o historiador Clóvis Moura em seu “Dicionário da escravidão negra no Brasil” (2004) nos apresenta a estreita relação entre escravidão e prostituição, norma esta fomentada tanto pelos senhores quanto pelas senhoras de escravas que se valiam do artigo 179 da Constituição do Império que garantia o uso da “propriedade” em sua plenitude. Assim, homens e mulheres donos/ donas de escravas submetiam suas “peças” ao meretrício por se considerarem donos/ donas da vida, da morte e, portanto, do sexo de suas escravas. Trago esta referência para ilustrar que (1) a economia nacional permanece aliada à exposição e exploração sexual da mulher negra, (2) o lucro obtivo com os programas exibidos na televisão brasileira permanece dependente do cativeiro negro, uma vez que necessita apresentar a mulher negra sob a forma de estereótipos como a mulata sensual, indivíduo exótico, pessoa que depende da ajuda da pessoa branca, bandida ou mendiga e (3) que persiste no Brasil a manutenção diária do pensamento colonial que reconhece no corpo da mulher negra um objeto publico.

“Sexo e as nêgas” é a mais perfeita combinação entre exclusão e assimilação cultural e expressa um racismo que se esconde por trás de uma suposta universalidade das leis ao sugerir que o “sexo livre” é um direito de todas as mulheres, quando na verdade discrimina que o sexo “das nêgas” é de quem/ pra quem quiser. Aqui, o corpo funciona como marca dos valores sociais e nele a sociedade fixa seus sentidos e valores. Neste sentido, o corpo da mulher negra está revestido de um sentido particular de expropriação, publicamente censurado e intimamente consentido.

Eu deixo aqui um aviso: O MEU SEXO É PRIVADO! E como sugestão, indico que se produzam séries sobre as personagens históricas invisíveis na memória nacional como Luíza Mahin, Antonieta de Barros, Preta Zeferina, Felipa do Pará, Preta Tia Simoa, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Carolina de Jesus e tantas outras ativistas e intelectuais negras que, se fossem representadas na telinha, demostrariam um avanço na mentalidade racista e colonial que mantém seus pés enfincados na ignorância.

Karla Alves

Grupo de Mulheres Negras do Cariri – PRETAS SIMOAS

8 de Março: Tribunal de Rua

No último dia 8 de Março, data do Dia Internacional da Mulher, uma marcha foi realizada em Crato/CE. Movimentos feministas e de mulheres estiveram presentes no centro da cidade, assim como o Grupo de Mulheres Negras do Cariri – o PRETAS SIMOA – que realizou uma intervenção dentro da própria marcha de mulheres, objetivando denunciar a exclusão das mulheres negras nas pautas feministas hegemônicas.

Integrantes do PRETAS SIMOA foram amarradas em postes e árvores, em alusão e em memória de um cidadão negro, com transtornos mentais, que fora preso a um poste na mesma cidade. Para contextualizar as demandas das mulheres negras, estatísticas e dados relevantes foram colados aos corpos das ativistas, chamando atenção para a situação das pretas brasileiras, que lamentavelmente são parte das piores e mais revoltantes estatísticas de exclusão e violação de direitos do nosso país.

Enquanto a marcha de mulheres passava e via as PRETAS SIMOA amarradas e amordaçadas, a integrante Jarid Arraes fez uma fala, no carro de som da marcha, apresentando a razão da intervenção e explicando as estatísticas.

Após a passagem da marcha, as ativistas voltaram à praça de concentração e novamente foram presas aos troncos e monumentos locais. Quando a marcha de mulheres retornou, se deparou com a intervenção. As mulheres da marcha colocaram cartazes e faixas no centro da praça, em frente a militante Karla “AgreSilva” Alves, que se encontrava presa ao obelisco principal.

Karla posteriormente se soltou, e empunhando um megafone declarou palavras de ordem e protesto diante do racismo dos movimentos de mulheres do Cariri e do Brasil, exigindo que as feministas brancas se deslocassem de seus locais de conforto para ouvir e atender as demandas das mulheres negras. Karla usou termos como “sinhá” para gerar desconforto e tornar explícito o privilégio da branquitude feminina.

Após Karla, as ativistas Dayze Vidal e Elandia Duarte também fizeram suas falas, provocando a necessidade de se enegrecer as lutas de mulheres, entre palavras de confronto e de combate ao machismo.

Para ver todas as fotos da intervenção, clique aqui e visite nosso álbum em nossa página do Facebook. Fotos por Jarid Arraes.

DA SENZALA PARA O CARTÃO POSTAL: minha carne não é do SEU carnaval.

Atualmente um fato específico causou grande polemica no que se refere à contribuição da mídia brasileira para manutenção e reforço da erotização da mulher negra, que foi o concurso para eleição da “Globeleza”, onde se inicia a “caça as mulatas” para representar a propaganda de uma das maiores festas do país, o carnaval. Esta é a única vez onde a beleza da mulher negra, reduzida a região inferior traseira, ganha vez na televisão para anunciar o produto bom, bundudo e barato ofertado para o entretenimento dos foliões estrangeiros que movimentam a economia turística do país. No resto do ano, sabemos bem o espaço que a televisão brasileira nos reserva: a cozinha ou a prisão.

Nós, mulheres negras, lutamos com livros, unhas e dentes buscando escrever nossa história para além da relação sexual com seu senhor, buscando superar o titulo de “vadia” que nos tatuaram a pele e que nos apresenta como objeto legitimador da escravidão atenuada.

Convivemos cotidianamente com diversos tipos de violência associados a esta imagem mercantilizada do nosso corpo, patrocinada e propagada pela mídia brasileira. Esta violência é de ordem moral, uma vez que a nós difama e fere nossa honra e reputação; é física ao por em risco a integridade de nosso corpo, já que somos tidas como “disponíveis”; e também psicológica, por implicar diretamente na percepção que temos de nós mesmas e interferir no nosso comportamento afetivo e sexual que se ampara nessa cruel identidade hipersexualizada em que somos vistas e que muitas vezes acaba implicando no reflexo que vemos no espelho.

Tirem seus rótulos do meu corpo negro!

Pretas Simoa: Grupo de Mulheres Negras do Cariri Cearense.

Fotos: Lino Fly Kariri