Poesia

ALEGORIA DO CATIVEIRO

Por Karla Alves

A “pretinha” de casa eu gostava de ser
Mimos, carinhos, dava até gosto de ver
De repente almas penadas
Na TV e nas escolas projetadas
Me fizeram a cabeça
E me gritaram “obedeça”!
Alisei cabelo
Tive vergonha do espelho
No cativeiro mental era tudo tão claro
Que de tanta dificuldade pra ver tive que ir pelo faro
Beirei a porta já um pouco torta de tanto me curvar
Mirei Dandara, Mahin, Simoa, Zumbi
Um monte de gente Preta, alarmada, eu vi
Escureci minha visão
Com Lima Barreto, Beatriz e Conceição
Considerei alto o precipício
Mas me lancei na escuridão
Cativeiro nunca mais!
Não me ofereçam pombo da paz
Que nas esquinas é que o despacho se faz
Mas sabe como é que é encruzilhada…
Te leva pro horizonte ou pra uma cilada
Então segui, mas fui cabreiro
Me liguei de cara que ali era o antigo cativeiro
Com aquelas vaidosas e estúpidas almas penadas
Todas alvas, ilustradas
Ensinando obediência
Ao povo preto que pedia clemência
Daí gritei: ei mano, sai dessa letargia!
Os mano disseram: mas como, se aí é noite e aqui é dia?
É tudo engano, essa cena se repete – eu falava
Mas a luz de lá de dentro encandeava
No interior as almas porcas grunhiam em coro:
“louca, agressiva”, me acusando de imenso desaforo.
Pra se manter no poder
Eram habilidosas em confundir e esconder
Pela “verdade seduzida” conquistavam
Pegavam nossas próprias armas e contra os irmão preto usavam
Mas não esperavam por minha CORvicção
Bolei um plano e logo pus em ação
Voltei por cada esquina que passei
E pedaços de espelho do chão eu apanhei
Com eles construí um escudo
Retornei ao cativeiro me fingindo de mudo
As almas penadas logo me deram como morta
Aproveitei a distração e estendi o meu escudo na porta
Chamei os prisioneiros a seguirem minha voz
Mas é difícil se erguer tendo à sua frente um algoz
Gozando privilégio e discursando “irmandade”
Almas pálidas que os prisioneiros julgavam por divindade
Junto comigo muitos outros Pretos vieram ter
Lá de fora gritávamos: corre até o espelho pra se ver
As almas porcas bradavam
Obediência e submissão ordenavam
Mas os prisioneiros erguidos cobravam a verdade
Chorando as almas toscas apelaram pra piedade
Mas aí, barão, já era!
O choro é livre e eu sei que tu supera
Fica sabendo que Preto consciente é forte
Não teme à vida e nem sequer à morte
Não vem com apelo de moça frágil e demente
Pois no teu verbo o chicote ainda é evidente
Conheço tua ginga, melhor não me subestimar
“quem não pode com a mandinga não carrega o patuá”
Desobediência epistemológica e existencial
Essa é a nossa meta, esse é o meu ideal.

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Violência acalentada

mulhernegrafinal

imagem da internet

Um nojo invadindo o peito

O incomodo de não dizer não

O lençol de culpa que me cobre o sexo

Por mais tempo que eu poderia imaginar

Um mar de ondas ao contrário,

É assim meu sexo

Invadido!

Meu silêncio de vergonha e descredibilidade

Hoje protetora de fêmeas

A memória ainda dói

Me move a lutar

A soltar o verbo.

Denunciar! Denunciar! Denunciar!

Mesmo deslegitimada

Pelo sexo que outrora eu não compreendia como diferente

Mas que hoje

Percebo as pérolas a enfeitar – lhe

As mesmas que me ejaculam cuspe

E com dedo e pênis rijo me acusam devassa.

Logo eu…

Negra de amor singular

Abortado de brutalidade ao sexo silenciado

De um sexo cuja amnésia coletiva

Impõem a dissimulação da violência acalentada.

 Karla Alves/Dávila Feitosa

A COR DA NOITE – por Dávila Feitosa

 

A COR DA NOITE

Mainha sempre conta que nasci preta como a noite
De tão pequena cabia na palma da mão
Cabelo escorrido, que pom pom não segurava, não
Tornar-se negra não é fácil, não
Diziam: é uma índia!
Não, não
Tornar-se negra não é fácil, não
Na cabeça não carrego a coroa da ancestralidade
Trago-a na cor da pele, na luta, na força da irmandade
Sou preta, negra pronta pro combate.

(Dávila Feitosa)

Sou Preta Sim – por Karla AgreSilva Alves

Sou Preta sim

Esconderam minha história por, em vão, querer ver em mim escrava

Como se preta livre nesse estado fosse crime

Não me deram espelhos

E na luz que encandeia meu passado

Juntei cacos de uma identidade amputada.

Catei símbolos, festas e loas

E me refiz

Sou Preta sim

A marca negra na aquarela laureada

E não sou sua

Para que se atreva a me arrancar o chão

E pôr minhas raízes aonde supõe minha origem.

Sou Preta sim

Mantenho meus pés infincados na natureza firme de minha negritude de onde brotarão flores e frutos dessa terra ressequida, jamais morta

femini-na-mente-negra

Ventre livre que rompe e continua o itinerário consciente de nossa afirmação.

Somos todas negras em ação.