História

Made in Ceará

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Por Karla Jaqueline Vieira Alves

Nossa identidade femini-na-mente-negra passa por traços e fatos que nem sempre foram testemunhados pela historiografia oficial como, por exemplo, a síndrome do “baianismo”: atitude movida pelo equívoco de achar que toda Preta afirmada no Nordeste brasileiro é baiana, ação na qual o nosso cabelo é o maior alvo desta percepção.

É diante desta e de outras formas de negação social que se forma a nossa identidade, inserida no processo que eu costumo chamar de Dialética Negra: negação > autocontemplação (espelho) > afirmação.

Na primeira etapa, em meio à sociedade que propaga o racismo e a misoginia por todos os meios possíveis (educação, mídia, instituições religiosas, etc.) passamos a sentir uma rejeição por nós mesmas. E o cabelo é o primeiro alvo desta negação. Na segunda fase, quando encontramos uma referência positiva para nos espelharmos, começamos a nos perceber e a aceitar quem somos, como somos. Ao nos contemplarmos surge a autoadmiração, o orgulho de nossa história, de nossas vitórias que inclui a afirmação de nossa identidade. E o cabelo se torna um desafio, pois, alisar já não parece o ideal; e assumi-lo crespo exige coragem. Finalmente, a terceira (e não última) etapa do processo se constitui quando esta identidade já não cabe mais em si e transborda como água em solo fértil para irrigar outras sementes negras guardadas no medo e fazê-las florescer. Nosso cabelo assumidamente crespo se constitui aqui, como o maior símbolo de nossa beleza, de nossa afirmação.

Infelizmente nem sempre chegamos a este último estágio, pois diante de dados sobre as condições sociais, econômicas, afetivas, escolares, de saúde, além da violência exercida pela mídia através da representação colonial da mulher negra nos programas de televisão, percebe-se que tanto no campo das relações objetivas materiais, quanto no campo das subjetividades, somos nós, mulheres negras, as que mais sofrem o impacto das diversas manifestações da violência racial.

Daí a necessidade de referenciais de Mulheres Negras protagonistas de sua própria história, para que possamos nos contemplar em histórias de mulheres negras vitoriosas.

Salve Simoa e todas as mulheres negras cearenses!

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A ABOLIÇÃO NO CEARÁ PELO OLHAR DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO CEARÁ

Por Yasmim Rodrigues

A historiografia brasileira foi responsável por narrar os fatos decorrentes no Brasil, e essa responsabilidade ficou a cargo dos Institutos Históricos, a primeira Instituição Histórica fundada no Brasil foi o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado logo depois da independência política do Brasil, criado nos moldes europeus, seguindo a cartilha da Academia Francesa, produzindo portanto uma história eurocêntrica, vista de cima. Seguindo esse mesmo modelo, posterior ao IHGB foram criados os Institutos Históricos dos estados de Pernambuco, Ceará e São Paulo respectivamente, mas o nosso olhar aqui se volta para a produção historiográfica cearense de um período específico, o pós abolição.

Sabe se que a abolição da escravatura no Ceará se deu quatro anos antes do restante o Brasil, em 1884, muitas são as justificativas para o feito. Mas o que se frisa mais é o desejo que a então província do Ceará tinha de progresso, os intelectuais evolucionistas que aqui habitavam sentiam o desejo de varrer do solo cearense a mancha da escravidão que os impediam de evoluir. O feito deu ao Ceará o título de “Terra da Luz”, província que iluminou e abriu caminhos para que o restante do Brasil colocasse um fim no trabalho cativo.

Isso é o que nos conta a historiografia tradicional, aquela moldada no viés europeu, de supremacia branca que inferioriza e deslegitima a luta do povo negro e cativo por liberdade. Fato que fica muito claro nas páginas da Revista do Instituto Histórico do Ceará, fundado em 1887, três anos depois da abolição no Ceará, trazendo consigo os legados do IHGB e, da história francesa, responsável por contar a história cearense, logo enfatizar seus fatos memoráveis. Neste sentido a abolição da escravatura obteve destaque em suas páginas. Mas, de que maneira essa história é contada, e a quem beneficia?

Falar de negro no Ceará é acima de tudo quebrar um tabu de anos posto e reforçado pela a historiografia partindo da falsa premissa de que não tem negros no Ceará, justificada pelo fato de que a escravidão foi branda, e que o número de cativos não era tão significativo se comparado aos demais estados do Brasil, mas o toque na ferida é necessário, no caso da população negra e cativa cearense é essencial, isto porque o que se conta é que os escravizados que aqui viviam eram serem inertes, sujeitos sem histórias, acostumados a sofrer e que em nada contribuíram para a cultura local, palavras que se repetem nos trabalhos historiográficos do século XIX.

Mas não frisam que a abolição se deu pela greve de jangadeiros que se recusaram a transportar negros cativos para serem vendidos e ainda mais explorados em outras localidades, inclusive de uma mulher negra, conhecida como Tia Simoa, que articulou a greve dos jangadeiros, e como de costume o seu nome não é mencionado na história racista e eurocêntrica. A historiografia deu mérito da liberdade do povo negro aos intelectuais e evolucionistas brancos cearenses, que desejavam remar para o progresso local e para que isso acontecesse era necessário dar fim ao trabalho cativo, a escravidão para os mesmos era um retrocesso que precisava acabar.

O Instituto Histórico do Ceará, em suas revistas e festividades no aniversário de 50 anos da abolição do Ceará, procura deixar clara a inércia do povo negro, que dependiam da boa vontade dos brancos para ter uma vida digna e livre, mas qual era esse conceito de liberdade tão exaltado pelas grandes figuras cearenses? Até que ponto a população negra, agora livre foi favorecida por essa abolição precoce que se deu no Ceará?

A história muito é devedora desses “afro-cearenses” que aqui vivem, primeiro os coloram na condição de objetos, usando um termo atual “marionetes”, inferiorizando suas ações, ridicularizando sua cultura, lhe pondo a margem da sociedade, uma história vista de cima, pelo viés europeu, baseado nas teorias evolucionistas, com doses cada vez mais pesadas de racismo, que não é velado, esta posto, e o que se foi produzido e maculado nos séculos XIX e XX, são responsáveis pelo racismo executado hoje pela elite branca, são baseados não apenas pelo que foi produzido no Instituto Histórico do Ceará, mas também fora dele, que a história nega a presença dos negros no Ceará, que a cultura oriunda de povos africanos é travestida de maneira mais europeia possível, afim de que perca sua representatividade, pois o negro africano remete a escravidão, fato que precisa ser apagado da história, logo o povo negro precisa sair de cena para que se acenda uma clareira nessa confusão racial brasileira.

Isso significa dizer, que a presença negra no solo cearense, se levarmos em consideração os textos históricos e o lugar social de quem os produziu, é resistência, um processo contínuo de enfrentamento social e auto afirmação de um povo que foi e é vítima de uma chibata que resignifica constantemente, antes era um chicote, depois a condição marginalizada imposta pelo estado brasileiro e por fim a caneta da historiografia brasileira que dar espaço para que o racismo ganhe cada vez mais força na nossa sociedade.

AS FILHAS DESTE SOLO

Por Karla “AgreSilva” Alves

A Preta “Tia Simoa” foi uma negra liberta que, ao lado de seu marido (José Luís Napoleão) liderou os acontecimentos de 27, 30 e 31 de janeiro de 1881 em Fortaleza – Ce , episódio que ficou conhecido como a “Greve dos Jangadeiros”, onde se decretou o fim do embarque de escravizados naquele porto, definindo os rumos para a abolição da escravidão na então Província do Ceará, que se efetivaria três anos mais tarde. No entanto, apesar de sua importante participação para a mobilização popular que impulsionou os acontecimentos, esta mulher negra teve sua participação invisibilizada na história deste Estado onde, ainda hoje, persiste a falsa premissa da ausência de negr@s.

As mulheres negras cearenses são comumente indagadas sobre sua origem e constantemente remetidas à Bahia, principalmente se não submetem seus cabelos a processos de alisamento. Esta não aceitação de nossa identidade se deve a cruel associação d@ negr@ à condição de escrav@, que no caso do estado do Ceará, teve seu processo diferenciado das principais capitanias importadoras de mão de obra escravizada devido a suas condições climáticas e geográficas, o que não significa dizer que aqui não tiveram escrav@s ou que não existiram negras e negros livres, a exemplo da “Tia Simoa” que, além de liberta lutou pela liberdade de seu povo, evidenciando uma expressiva característica da população negra (escravizada ou liberta) deste período que ultrapassa a visão dicotomizada entre o conformismo e a resistência, pois demonstra “uma experiência construída historicamente pela etnia negra” (FUNES) estabelecida através de sua sociabilidade, engajamento e luta inserida em seu cotidiano.

A ausência desta documentação histórica se repete no tocante as demais lideranças negras que atuaram no restante do país como Luíza Mahin (Ba), Mariana Crioula (Rj), Tereza de Benguela (Mt) dentre tantas outras que poderiam figurar na lista de resistência e resiliência negra feminina mas que são invisíveis na historiografia oficial do país, bem como na história do feminismo brasileiro que desconhece o extenso histórico de enfrentamento político e social da mulher negra no Brasil. A omissão desta representação na história oficial perpetra o imaginário social e destina, controla e manipula a subjetividade desse contingente significativo de mulheres no Ceará, assim como no restante do Brasil que, além de não veem suas demandas específicas inseridas no debate sobre feminismo também não se percebem nos principais embates simbólicos travados no bojo dessa importante organização política.

Atrelando o conceito de gênero ao de “raça”, onde ambos descartam o discurso biologizante das diferenças para se deterem ao campo semântico do conceito abreviado de “mulher negra”, devemos considerar que este é, sobretudo, um conceito determinado pela estrutura da sociedade e pelas relações de poder que a conduzem. Dessa forma, conhecer a história de Simoa, mulher negra cuja história está submersa entre os escombros da memória é, pois, estabelecer um sentido de pertencimento a um grupo social historicamente invisibilizado no estado do Ceará. Ao sabermos da influencia que as representações históricas exercem na organização social poderemos compreender de que forma o discurso, inserido no pensamento social, contribui para a construção das relações que se estabelecem neste meio.

Ao eleger os sujeitos de uma representação histórica, estamos exercendo o que Bourdieu chama de “poder simbólico” (2006, p.14), pois estamos nomeando um objeto constituído na enunciação. Compreendendo o discurso como campo de exercício deste poder e, portanto, como instrumento de dominação, ele assim se efetua ao tomar reconhecimento e se concretiza ao tornar-se uma representação social ideologicamente estruturada, vindo a contribuir significativamente para a construção da realidade.

Com isso quero dizer que, ao buscar conhecer a estrutura socioeconômica dos responsáveis pela produção e reprodução deste discurso, podemos entender como se formaram as configurações ideológicas acerca da imagem da população negra no Ceará, sobretudo no discurso do período pós-abolição, onde se elegeu os sujeitos para representarem o movimento abolicionista ao mesmo tempo em que sepultava a memória dos “atores” esquecidos. É por meio do poder simbólico que a historiografia oficial tende a forjar a “não presença” de negras e negros no estado do Ceará e, assim, a naturalizar essa invisibilidade por meio da reprodução deste discurso no âmbito educacional perpetrando o imaginário social.

É, portanto, percorrendo o itinerário oposto que buscamos desvendar os elementos para compor nossa representação histórica a partir do protagonismo de mulheres negras que tiveram sua participação omitida nos discursos sobre a série de ações de resistência e de enfrentamento à escravidão, como no caso do movimento abolicionista no Ceará que resultou em uma abolição pioneira no Brasil e que este mês completa 130 anos, nos levando, mais uma vez, a refletir sobre os desdobramentos deste processo no bojo dos discursos que se sucederam. Da mesma forma, a omissão sobre o protagonismo de mulheres negras ao longo da história do Brasil se reproduz no tocante a história oficial do feminismo brasileiro.

Ao voltar o olhar para o feminismo brasileiro percebemos as profundas desigualdades que se reproduzem em suas contradições internas, principalmente quando visto a partir da dimensão racial, ao desconhecer e desconsiderar o duro processo de aprendizagem em busca da construção da identidade da mulher negra. É necessário, portanto, avançar diante destas e outras contradições específicas através de um denso questionamento da lógica estrutural da sociedade, onde estará presente o racismo.

É neste sentido que buscamos reescrever nossa história, para que possamos nos reconhecer como sujeitos em nosso próprio discurso e, assim, fortalecer os laços de nossa identidade através da organização coletiva. Pouco sabemos sobre a vida da Preta “Tia Simoa”, que de forma quase que despercebida passa as vistas dos historiadores, constando apenas um minúsculo relato sobre sua participação na Greve dos Jangadeiros de janeiro de 1881 (GIRÂO, 1984, p.104), o que demonstra a dívida histórica deste país para conosco.

Contudo, Simoa representa para nós uma visão alternativa de mundo ao mesmo tempo em que propõe para tod@s novas discussões acerca das estruturas sociais tradicionais, nos permitindo a reconfiguração de uma realidade social. Em nome dela, saudamos a todas as negras invisíveis na história e nos fortalecemos no eco de suas vozes silenciadas para dizer que aqui estamos e que daqui, do Ceará, falamos em inúmeras primeiras pessoas e dizemos que ainda há muito que se contar. Nossa história apenas começou!