Feminismo Negro

25 de julho dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e de Tereza de Benguela

Em comemoração ao dia Internacional da Mulher Negra Latino Americano e Caribenha e de Tereza de Benguela o Grupo de Mulheres Negras do Cariri Cearense – Pretas Simoa visando a urgência e necessidade de discutir as questões que afligem as Mulheres Negras das mais diversas formas e circunstâncias propôs a realização do evento Mulher Negra X Agressividade que buscou ser um espaço de discussão e reflexão crítica sobre diversas experiências que tendem combater o racismo, sexismo e violências correlatas, em especial no que se trata as Mulheres Negras.

O evento trouxe:

  •  Exibição do filme “For Colored Girl” seguido de debate
  • Fala Preta: Mulher Negra X Agressividade;
  • Carolinas e outras Marias: oficina de amor Femini-na-mente-negra;
  • Mulher Negra no Hip Hop: Bgirl Daiany e Bgirl Vanessa;
  • Sarau das Pretas

Fotos: Ricardo Alves

AH, SE EU TIVESSE ASAS… OU, PROGRESSO DAS BESTAS

Por Karla Alves

-Dedico este texto aos meus professores de Historia da URCA, com exceção de três apenas. Mas especialmente a um casal de palermas que aplaudem a imbecilidade um do outro.

Eu vi o trem…

Com vagões cheios de animais enjaulados e confortavelmente adaptados às suas condições. Alegremente iam os animais guiados por um maquinista robô secularmente programado para alcançar sua estação segura dentre limitados portos-seguro, onde havia a promessa de conceder asas a quem lá conseguisse chegar.

Ao lado da locomotiva, cavalos sem selas nem viseiras acompanhavam o trajeto do trem, acreditando que este os levaria ao sobre-solo de onde se podia ver com segurança o resto do mundo e onde haveriam de se tornar cavalos alados; a mais alta patente para a categoria dos cavalos ilustrados.

Oito estações percorria o trem até alcançar o seu destino. Em cada uma destas estações pairava a insegurança e o medo entre os comprimidos e irracionais passageiros de que o maquinista mecanizado e indiferente viesse a esquecer-se de algum animal e seguisse o seu percurso abandonando o pobre bicho ao seu próprio destino.

Eu mesma, como ovelha mansa que fui, tive o desprazer de ser esquecida na estação terceira, onde me abandonei por longos quatrocentos anos para dar à luz a uma pantera. Mas como cordeiro pode procriar um felino? Eu me perguntava sem encontrar esta ou qualquer outra resposta na estação superlotada de esperançosos. Foi então que percebi que a estação era gerenciada por um albino tutor arrogante que se considerava dono da estação, do trem, dos trilhos e até mesmo do maquinista robô e do seu itinerário. “É um estúpido”, eu julguei. Mas os outros animais, ovelhas como eu, o aplaudiam de pé, inflando ainda mais as convicções estapafúrdias do tutor dono do mundo ( para este o mundo não ultrapassava as fronteiras do seu próprio umbigo).

Larguei-me a pensar se nas demais estações ocorria o mesmo processo, pois nas duas anteriores em que havia passado não tinha observado com suficiente atenção para perceber qualquer situação. Dei-me conta de que se não tivesse sido abandonada (por descuido ou destino) naquela terceira estação talvez passasse pelas posteriores sem lhes prestar a mínima observação.

Foi em meio a estas reflexões que escutei o barulho da engrenagem enferrujada se aproximando da estação terceira. Era o trem!!!

Resoluta, me apressei a entrar e chorei ao saber que meu pequeno felino não poderia me seguir. Acenei e parti com ansiedade em dedicar minha atenção para as demais estações a que me destinava, onde os tutores como lobos famintos tentavam nos agarrar às patas para fazer de nós suas eternas presas. Não havia, então, me dado conta do quanto as experiências na estação terceira, em que estacionei a vida, tinham modificado a estrutura do meu ser. Não me adaptava mais à minha antiga jaula e, por este motivo, era constantemente repreendida pelos “bichos-comedores-de-espelhos” que doutrinavam em cada vagão os passageiros do trem com chicotes no lugar da língua e palavras hipnotizantes que não me surtiam mais efeito.

Foi lá pela altura da sexta estação que um “bicho-comedor-de-espelhos” cochichou para um tutor “dono do mundo” sobre o meu comportamento inadequado para àquela ordem do rebanho. O tutor, na sua doutoral missão de me fazer voltar à condição de ovelha, me repreendeu chegando a xingar-me de “agressiva” e, como diria um escritor negro jamais lido em qualquer das estações, eu “nunca imaginei que um insulto pudesse ir tão longe na nossa natureza”.
Corri para a locomotiva e me deparei com meu próprio reflexo no espelho do retrovisor ainda não comido pelos “bichos-comedores-de-espelhos”. Não me reconheci de imediato e tive que fazer diversos movimentos repentinos para me certificar de que o reflexo no espelho corresponderia aos meus gestos. Foi aí que finalmente compreendi: Eu sou uma pantera. Num impulso saltei subitamente do trem em movimento, herdando por isso algumas cicatrizes, e me pus a correr entre os cavalos que, desgarrados, queriam ser alados.

Cheguei, em fim, na oitava e última estação, sem surpresa ou alegria.

Não haviam asas, mas vaidades que, como ópio, simulavam voo.

Permaneço a correr, agora solitária, para continuar a subir horizontes sem me distanciar do chão.

Foto: Nívea Uchôa

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RETROSPECTIVA PRETAS SIMOA 2015: MARCHA DAS MULHERES NEGRAS

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Consideramos que o processo de mobilização e organização para a Marcha das Mulheres Negras 2015 proporcionou uma massiva visibilização, reconhecimento, propagação e comunicação entre as diversas organizações de mulheres negras em todo o Brasil. Tivemos a oportunidade de reconhecermos em nós as especificidades que nos são comuns, MULHERES NEGRAS das Américas.

Além de nossas singularidades percebemos também os desafios que nos são peculiares, como o de superar a preterição por parte do governo, em suas três instâncias. Ao levantar questões sobre as nossas demandas somos condicionadas a voltar à estaca zero contando desde o princípio a história das Mulheres Negras neste país e nas Américas para tentar convencer as autoridades governamentais sobre a legitimidade da nossa luta, passando por constrangimentos e humilhações que denunciam a inferioridade com que o Governo trata as nossas especificidades.

Para que haja um significativo avanço a nossa história precisa se tornar oficial, em se tratando da história propagada nas escolas, universidades, feminismo, movimento negro; as nossas demandas inseridas nas agendas do Governo, seja da direita ou esquerda governista; e o debate sobre essas demandas deve ser amplamente divulgado para que mais pessoas possam ter acesso e reconhecer a política que defendemos com urgência.

Podemos citar como exemplo das nossas diversas pautas a partilha da maternidade das mulheres pobres (em sua maioria mulheres negras) com o governo, propiciando assim, o tempo necessário para que estas mulheres possam se dedicar à sua vida profissional e acadêmica. No Cariri, não temos creche nas universidades e as municipais não atendem às demandas da população; não temos cotas raciais para o ingresso nas Universidades e nem para o acesso às bolsas que podem vir a garantir a permanência da aluna que, quando mãe, precisa garantir o seu próprio sustento e d@(s) seus/suas filh@s.

Reconhecer estas e outras necessidades políticas, sociais, econômicas e afetivas entre nós, MULHERES NEGRAS, foi uma experiência que a Marcha das Mulheres Negras nos permitiu.

Éramos milhares de Mulheres Negras de todo o Brasil ocupando as ruas do Distrito Federal, saudando o sol, o vento e a chuva e, nessa imensa comunhão marchamos JUNTAS: sim, pois, mesmo sem sabermos os nomes de cada Mulher Negra que lá estava ou das organizações políticas que estas representavam, MARCHAMOS JUNTAS; mesmo sem a presença física que por diversos fatores impediram outras milhares de Mulheres Negras de lá estarem, MARCHAMOS JUNTAS; mesmo sem a presença em matéria de nossas majestosas ancestrais que lá estavam em força e espírito, MARCHAMOS JUNTAS; mesmo que antes e depois dali a nossa luta cotidiana siga por caminhos diversos, naquele dia, 18 de novembro de 2015, nós MARCHAMOS JUNTAS.

As Mulheres Negras que lá estavam souberam que cada uma de nós representa milhares de outras. Éramos muitas em cada uma de nós. Eram inúmeros ecos em cada voz. Éramos nós escrevendo a cada passo, a cada gesto, a cada verbo a nossa própria história narrada pelas que antes caminharam para que nós ali estivéssemos, as que seguirão no futuro cada passo ali firmado.

JUNTAS éramos o passado, o presente e o futuro: gerações de guerreiras anônimas que resumimos em nossas veias; espelhos em cada face que nos permitem ter orgulho do nosso próprio reflexo; e armaduras que permitirão às nossas próximas gerações combaterem o racismo, o machismo e a homofobia com dignidade. E tenham passos a seguir com respeito.

PRETAS SIMOA: Grupo de Mulheres Negras do Cariri.

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Por Karla AgreSilva

Salve Maria de Araújo
De quem roubaram o túmulo e a memória
Salve Simoa
Sepultada nos escombros de uma história laureada
Salve as negras nordestinas
De um Ceará que nos nega a existência
Quantas mais esconderam de mim?
Quero avisar que de nada adiantou
Nos cemitérios da história
Eu aprendi a farejar
O raio de Iansã será farol pra me guiar
Minha voz é trovão
Que precede tempestades
Faz soar mil ecos em um só grito
Arrasando os vermes da esperteza vil
Mas você,
contido em sua linearidade oposta ao circulo que me conduz,
é muito pouco pra entender, pra sentir, pra saber.
Você me insulta do verbo impróprio ao silencio indevido
Sua porta fechada não vai me deter
Não vai me impedir de te fazer compreender
Que sou Atlântica, Terreiro, Ilê
Terra Mãe que te pariu pra me enjeitar
Pra onde tua carcaça, asco e poeira
Um dia certamente irá voltar
Pois não deixo dormir àqueles que me devem
CORvicção de minha condição
Consciência negra revertida em ação

Negras Mulheres de ontem, de hoje e do amanhã juntas na MARCHA DAS MULHERES NEGRAS 2015

NEGRO, MAS NÃO O SUFICIENTE. OU SERIAM ALUSÕES DA LIBERDADE?

Por Karla Alves

 

Napoleão era negro valente. Arrastava facão no chão de faiscar caso percebesse algum desacato. De escravizado virou líder. Sua liberdade não cabia dentro de si, daí o negro liberto a fez transbordar de dentro do peito como se fosse rio se despedindo das margens. Desse dia em diante não podia mais abaixar a cabeça, e olhando de cima percebeu que mundo era grande e o horizonte distante.

Foi num dia de sol que dois homens tão alvos quanto o dia, convencidos daquela fama de valente que percorria os vendavais, vieram procurar Napoleão com proposta feita: – “É o seguinte cidadão de bem”

Napoleão sorriu do lado avesso com a expressão ouvida que apesar de inédita não causava estranheza devido a boca que versava

– “Desde o século passado procurávamos um homem para nos fazer um serviço de alta estima”

Napoleão fingia atenção embora sua vontade estivesse no mar… e os dois homens continuavam:

– “Queremos bem feitoria para os negros, libertar a todos desta mancha de nossa história que é a escravidão, cuja manutenção tem servido como entrave para a recuperação de nossa economia. Já não temos mais como sustentar nossos cativos então resolvemos ficar só com os cachorros que é para as crianças não chorarem. E aí pensamos em vossa dignidade para fazer aqui na zona praieira a mobilização que estamos precisando para alavancar nosso projeto. Caso vossa nobreza aceite teremos repercussão suficiente para aparecer no Jornal da Nação contando nossa bem-feitoria, mas não se preocupe, que quando isso acontecer nós permitiremos que o senhor esteja ao nosso lado ouvindo e consentindo tudo que falamos”.

Napoleão fez que sorria. Coçou a cabeça para ver se ativava a paciência. Parece que serviu. Num lapso de segundos pensou nas lágrimas que regaram seus sentimentos de liberdade, nas de suas irmãs, nas de seus companheiros de cativeiro. Lembrou-se então que não havia ninguém para enxuga-las, pois, o escuro da senzala assombra até a mais gloriosa lembrança de zelo. Atravessou entrecortando o olhar claro e ansioso dos que lhe fitavam e, antes que pudesse responder, os dois homens a sua frente anteciparam a intenção de sua resposta:

– “Queremos lhe dizer, Senhor Napoleão, que não pretendemos fazer imposição alguma e nem muito menos deixar que o senhor saia sem nada desta história. Caso o senhor diga sim, iremos recompensar por sua estimada humildade africana” – mas Napoleão era brasileiro – “lhe daremos a honra de ter sua imagem publicada em nossa rede social com a marca de nossa campanha ‘SOL DA LIBERDADE EM RAIOS FULGIDOS’ onde o senhor irá posar de frente e ao nosso lado, comprovando nossa irmandade. Caso o senhor queira, e nós iremos compreender perfeitamente, pode segurar algumas correntes que terão a outra ponta caída no chão, para demonstrar aos seus iguais que o senhor subiu, está ao nosso lado e não os esqueceu, já que está puxando todos eles lá de baixo para subir junto ao senhor. Ah! Claro que, para isso, o senhor terá que cumprir com algumas exigências. Nada muito dispendioso. Mas o senhor terá que falar apenas quando e o que nós dissermos. Qualquer revista, blog, jornal ou estudante universitário que queira lhe entrevistar terá que passar primeiro por nós, afinal nós é que tivemos a ideia de liberdade. O senhor vai ficar famoso, Seu Napoleão, pense bem. Mas caso o senhor se recuse, teremos toda legitimidade possível para considera-lo um desaforado mal-agradecido. Pense bem senhor Napoleão… o senhor é um homem inteligente, pense bem”….

Não precisava… Lá de cima, de onde Napoleão aprendeu a olhar, dava pra ver que nas voltas do mundo a história se repetia como as ondas do mar que lhe chamavam. Foi então que ele respondeu:

– “Não quero não senhor, não sou capacho não senhor, não sirvo mandato não senhor, e isso que voismicê chama de liberdade não é liberdade não senhor. Eu sei reconhecer o barulho do chicote. Agora me dê licença que o mar tá me chamando que é pra eu não embarcar nessa onda de irmandade e voltar pro cativeiro”.

Enquanto Napoleão pegava onda no mar, uma estátua de Zumbi posava inerte e desinformada ao lado dos doutores que exibiam sua campanha no Jornal da Nação, vangloriando a liberdade em raios fulgidos.