Feminismo Negro

Eu te desafio a me amar

 

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Não preciso de ordens

Não preciso que me aceite

Não preciso que me chame atenção.

 

Sou uma Mulher,

Não um cão,

Eu sou uma Mulher!

 

Para amar uma Mulher Negra

É preciso coragem,

Coragem de aprender e desconstruir

Sem ordens, sem normas e regra

 

Sou uma Mulher!

Sou uma Mulher!

Eu sou uma Mulher!

 

O amor de uma Mulher Negra

É destemor

Firmeza

Zelo

Sem ordens, sem normas e regra.

 

Eu sou minha própria sorte

Eu me aceitei ( E isso é lindo)

Posso ser sua canção

 

Para amar uma Mulher Negra

Você tem que abandonar o papel de poderoso chefão

Tem que ser um homem

Com a coragem e vontade de aprender de um Menino

Ter mente e coração abertos

 

O amor de uma Mulher Negra

É oração

Ação

Subversão

Reivindicação

 

Para amar uma Mulher Negra

É preciso ouvir, mais do que falar

É fazer, mais do que falar

É ser, mais do que falar.

 

Uma Mulher Negra não é difícil de ser amada,

Não possui armadura,

Não tem capa protetora anti-amor.

 

Para amar uma Mulher Negra

Tem que despir a mente da brancura instaurada

E permitir-se amar.

por Dávila Feitosa

 

 

 

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Meu lugar ao Sol

O sol nasce para tods, como se repete pela voz do povo…mas é preciso muits queimando no sol para que alguns poucos desfrutem de vastas sombras.

Há alguns dias após uma palestra que ministrei numa instituição de ensino para superiores uma mulher branca que também havia proferido uma palestra antes de mim me procura ao final da minha fala pra dizer (com os olhos emocionados) que “não tinha culpa de ser branca”. Eu respondi que eu também não tinha culpa dela ser branca, que eu abria mão do legado de opressões destinado à pessoas de minha cor e perguntei se ela estava disposta a abrir mão da herança de privilégios por ela gozados por ter a pele clara. Não houve resposta. Nesse caso (eu disse pra ela), não venha me afirmar que está do mesmo lado que eu nessa luta. Daí pensei sobre a serventia dos discursos que repetimos para nós mesmos e a quem de fato esses discursos acomodam.

Outros ditados são comumente repetidos pelo verbo popular para nos acomodar nas condições sociais que nos destinam, como o do copo vazio que tá cheio de ar. Sem menosprezar o poder sagrado e elegante do Ar, me pergunto (em termos materiais): um prato ou um copo cheio de ar serve pra encher o bucho de quem mesmo? Bem, no Cariri muits “Mestres” da cultura popular (prets em sua graaaaaande maioria) têm muitos copos, pratos e panelas vazios sobre a mesa enquanto “Mestres” e “Doutors” superiores (brancs em sua quase totalidade) se afirmam como “intelectuais da cultura” disfarçando sua obesidade conceitual em sandálias de couro ao mesmo tempo em que ditam regras e ditados para nos convencer de sua eterna síndrome de princesa Isabel.

As relações raciais que permeiam o debate sobre as manifestações culturais brasileiras definem o lugar que cada qual ocupará debaixo do sol. O grande intelectual negro Abdias Nascimento já nos alertava sobre as motivações dos funcionários da corte portuguesa no Brasil colônia que permitiam às celebrações de origem africana:

“Para o governo (…) o batuque é um ato que, uma vez por semana, força todos os negros – automaticamente e sem conhecimento consciente – a renovar aqueles sentimentos de aversão mútua que eles tem por concedido desde o nascimento (…) Esses sentimentos de hostilidade mútua podem ser vistos como a mais poderosa garantia que as maiores cidades do Brasil desfrutam. Suponha que um dia as várias nações africanas esquecessem sua tradição de ódio, inculcado de uma para outra. Suponha que (…) se tornassem amigos e irmãos: o resultado seria uma espantosa e inelutável ameaça ao Brasil, que terminaria com a desolação do país inteiro”. (Extraído do livro O genocídio do negro brasileiro de Abdias Nascimento).

Como podemos ver, não havia benevolência ou tolerância dos senhores dirigentes do Brasil ao permitirem e até encorajarem os folguedos ds negrs escravizads, como nos fizeram pensar aqueles que nos ensinaram a pensar e insistem em se desenhar sob a ótica do mito do “Senhor Benevolente”. Muito diferente nos atesta a escrita de um negro intelectual como Abdias ao nos apresentar tal documento que revela as intenções por trás das conceções dos Senhores, que visavam estabelecer a discórdia entre os povos negros através das diferenças culturais que cada nação negra trouxera em seu corpo, mente e coração.

De lá pra cá a síndrome senhorial se adaptou ao mercado e garante cargos com altas remunerações em instituições culturais para os herdeiros da pele branca e da vasta sombra, enquanto mantém a disputa e a discórdia entre os que tostam a pele debaixo do sol manifestando sua herança cultural, seja pelo verso cantado, dançado ou dito, garantindo a identidade nacional que é NEGRA, embora apresentada como mestiça (elemento fundamental da política de genocídio contra o povo negro). Os miseráveis cachês destinados aos grupos de tradição, assim como a política do Tesouro Vivo (deturpada em sua implementação vindo a ser hoje uma lei semelhante a dos Sexagenários, que “liberta” quem já beira à morte e os entrega à própria sorte) são alguns dos mecanismos de manutenção da disputa e da discórdia entre brincantes da tradição… Nada de novo, como podem ver.

A apropriação de nossas mentes e corpos continua. Os Senhores e as Sinhás ainda são xs mesms que continuam se passando por generosxs por nos servirem cafezinho enquanto roubam nosso ouro, e ainda querem nossa gratidão.

Nós negras e negros ainda somos maioria populacional nesse país erguido sobre a exploração do corpo e da mente negra. Precisamos construir pontes sobre a lama de discórdia que nos destinaram.

O couro do pandeiro no lombo negro é quem tosta no sol pro branco dançar, aplaudir e cantar engordando seu saldo bancário nas sombras da exploração.

(Karlinha Sutil)

Me sinto sufocada
Presa dentro do meu próprio útero
Frio demais, escuro demais para (re)existir
Asas atrofiadas
Para uma mente em expansão
E se eu pudesse voltar
Para o instante da concepção
Não lutaria por ninguém
Pela liberdade de ninguém
Não antes de conseguir a minha própria
Mas de fato
Quem se importa?
São noites sem lua…
Meus assassinos nem me reconhecem mais
Descansam em paz
Enquanto o meu dia não amanhece

KARLA ALVES

MÃES NEGRAS

Enquanto espero
bebo, fumo, calo,
ouço, aplaudo, rio,
vejo, grito, cuspo,
e choro…
Enquanto espero
o tempo que já não há
recordo o que a memória arrasta
repito o já tantas vezes dito
no tempo que é passado
mas que insiste no infinito
e choro…
Enquanto espero
caixões carregam esperança
sonhos e certezas de mudança
aguardam a pele carimbada
na cova fria e cultivada
por pele preta que lá guarda
as tristes marcas do racismo
eu sinto a terra na boca
o oco no peito que não bate
vencido pela ordem que gesta o caos
em nome do progresso pálido
que cria a margem e a elimina:
eu penso, eu lembro, eu sinto muito
e choro…
Enquanto espero
me dizem “calma”…
mas as balas cobram urgência
e meu útero chora
mais um sangue derramado
mais um futuro passado
extinto e para sempre lembrado
é também meu o fruto decepado
que enterra seu destino
Enquanto espero.

KARLA ALVES

em 14 de maio de 2014

Genocida Sacramento

(À sta Maria de Araújo e aos irmaozin do Rosário (Barbalha) assassinados pelo Estado racista genocida)

Não existiu milagre sem sangue
Não existe memória sem interesse
Não existirá santa sem túmulo… Assim decretou o humano demasiado desumano…

Condenada à morte e ao esquecimento
Não terás filhos, afilhados nem fiéis
Não terás altar
Não te erguerão estátuas nem símbolos que de ti possam se orgulhar
Teu sangue em tua boca sufocará, lacrada junto as tuas palavras que jamais serão lembradas
Tua memória morrerá com teu útero seco e improdutivo, já que nenhum lucro a nós poderia gerar
Da santa ceia teu corpo indecifrável não poderá participar
Queimada seja tua pele tostada que te incriminou
E nem teus ossos restarão para adubo
Jamais serás pão; jamais serás vinho
Nós, mentes albinas, dotados da mais nobre clarividência
Munidos do poder por nós mesmos instituído e em nome de deus pelos homens aceito
Decretamos o teu mais completo abandono
Por tudo o que é mais sagrado
Por todos nós profanos
Estarás tu, Maria Araújo
Fêmea negra pobre e obscura
Para sempre enterrada nos esconderijos do nosso poder.

Assinado: A Igreja dos Santos Brancos de todos os dias.

Do lado de fora do castelo imperial os transeuntes frenéticos comentavam o veredito. Já era noite quando a beata Maria de Araújo foi levada acorrentada para seu calabouço senzarial secreto…entre badaladas de sino, glórias e aleluias… À margem do império de luz um grupo de jovens situados numa distante esquina, respeitando a distancia física estabelecida pela corte, debatiam sem “razão” ou esperança o trágico destino de sua Santa de fé e de cor:

– Ouvi dizer que o milagre só se repetiu na boca da santa…
– Fala baixo, seu idiota! Se te pegam chamando ela de santa a gente tá fudido…
– Tá bem…tá bem… mas ouvi dizer que a Ostia sangrava na boca Dela por diversas outras mãos… mas nunca em diversas outras bocas pela mesma branca mão…

Por descuido ou desaforo uma jovem impetuosa cuja pele se confundia à própria sombra indaga alardamente:

– A quem pertence o milagre, então? A quem patrocina a morte ou a quem sobrevive pra ressurreição?

Rápido como um Raio um Ku Klux Klan encapuzado surge do nada e arranca a garota do meio dos seus, como uma fruta podre que ameaça apodrecer as mentes sãs… Brutalmente o oficial episcopal arrasta a “agressiva” que se debatia até a fogueira, onde será queimada em punição junto à sua voz de munição… Ela esbravejava pragas e num só grito que mais parecia um trovão ela afirmou:

– O milagre é meu!

Entre soluços e desespero, amarrada no altar de chamas da consagração, a jovem de tez escura faz sua ultima oração:

– Santa Maria de Araújo, rogai por nós… Por nós, condenai-vos, óh digníssima Mãe. Eles sabem muito bem o que fazem…

Maria de Araújo era morta nesse instante em que a jovem negra, condenada como traficante, olhava em sua mão o kit droga com selo Raio especial pela primeira e ultima vez…

(Karlinha De Tal)