Autor: Dávila Feitosa

Graduada em Biblioteconomia, feminista Negra, membro do grupo de Mulheres Negras do Cariri Cearense - Pretas Simoa

Real(eza)

Por Jéssyca Diniz

…Para ser uma Rainha não precisa apenas sentar no trono, é preciso saber governar, e as vezes governar precede de atos que nem sempre nos favorecem… Tiramos pedaços de nós mesmos para alimentar os nossos, sorrimos mesmo quando estamos esfaqueados por dentro… Ser Rainha as vezes nos faz abrir mão de nossos sonhos, mas não nos faz descrer no futuro, ser rainha é mais que glamour, é bem mais que coroa… é estar mesmo que com trapos e farrapos com a cabeça erguida… diante dos inimigos e em lágrimas perante os seus… Pois as vezes, nem todo choro é de tristeza, e nem toda lágrima é de dor… É não se preocupar com súditos, pois os seus e suas iguais sempre te reconhecerão…

 

Texto feito em prol da sanidade mental de todas as princesa e rainhas pretas que passaram, passam e que virão…

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Ave Nossa Senhora Preta

 

Mãe da escuridão do Céu
Que estais entre nós na Terra
Como divindade sejas reconhecida
Seja Eu o Vosso reino
Ensina-me a reconhecer minhas virtudes
Que Eu aprenda com o Céu
Que Eu me transforme no MAr
Que Eu ensine Amor na Terra
A água sábia e benta de vaginas e tetas nos dai hoje
Me ajude a aprender com os meus próprios erros, com os de mais ninguém
Não me deixei cair em fálicas mãos de P* duro
Mas renovai meu brilho agora e depois do Além…

Ave Mar ia
Cheia de graça pela praça
Maria santíssima
Como puta sempre apontada
Enquanto passava
Sobrevoando como quem nada
Nadando no vento como quem voava
Calçada de Lua
Vestida de Sol
Subiu aos céus
Depois de apedrejada…
Morte e vida feminina
Para sempre repetida
Para sempre lembrada…
Amem

(Amadora De tal)

Extra! Extra!

No CARIRI MACHISTA de hoje:

Super homem do Real não quer abrir mão de sua mulher de estimação e faz uma proposta justa: comida, plano de saúde e um passeio semanal em troca de liberdade. A mulher não aceitou e o super homem surtou.

-“Mas como? Porque não?”, indagou… “Isso é mais do que circo e pão”, reForçou… “Essa mulher deve ser louca mesmo! Louca e puta! Quer liberdade pra que”?

Ela, que antes de doar seu calcanhar já sabia escrever e falar respondeu:

-“Dêxe eu ir, nhonhô… Sou sujeita inculta, não sou seu predicado normativo não sinhô…quero correr mundo… Me diga, meu sinhô, me diga por favor… Quanto vale o meu quilo”?

Mas o sujeito culto da oração em questão gostava de predicados seus. E para garantir seu direito de macho organizou preventivamente a compra dos adjetivos necessários para garantir a tutoria sobre sua mulher-mercadoria: da psicóloga, a louca; da feminista, a idiota; da academia, a besta-fera; do mercado trabalhista, a preguiçosa; da igreja, a puta; do filho varão, o nojo; dela mesma, o desgosto… Assim, sem quase nada gastar do seu pozinho mágico que faz de tudo Real, o sujeito predicou em norma culta a composição complexa da oração, setenciando o verbo e substantivo impróprio “puta” para sua burra mulher de estimação. Outros capítulos virão….

 

Por: Karlinda de Tal

KARLINDA DE TAL

Fulana de Tal não tem sobrenome, família, herança ou esperança. Deserdada. Desmedida. Desterritorializada. Desempregada. Desnorteada. Desgraçada. Destruída. E por isso, Destemida. Não se pode temer perder o que não se tem. E Fulana de Tal não tinha nem mesmo a si mesma. O resto do mundo se sabia dono dela, de toda ela: seus órgãos, seus poros, seus pensamentos, seus sentimentos… Toda ela gerava lucros aos Herdeiros Territorialistas Medidores Empregados e Agraciados pelo azul geográfico do topo ao Norte: topo da pirâmide social, ao norte da cruz esterilizante e bem sucedida que promove guerras para obter mais e mais lucros.

– Tenha calma, minha irmã/meu irmão de cor…

Fulana de Tal pensou em escrever nos muros se escrever soubesse…

– Serei eu uma Gota Serena de veneno camaLeoa que atravessa os olhos dessa gente tola. Caminho entre pétalas com pedras nas mãos, navalha na língua e serrote nos dentes, falando abertaMente pra esses dementes que ainda calculo a dívida que deles irei cobrar, e meu breve silêncio é pra fazer pensar que durmo à tranquila espera do dia raiar. Não senhor! Meu pensamento arquiteto imoral não cessa em pensar o plural do Amor que cultivo nos meus: são sementes combativas do mal germinadas no breu, e seus frutos carregam no sumo uma Gota Serena camaLeoa que assim como os grafites nos muros transmitem disfarçadamente a proliferação de nosso poder.

Fulana de Tal debulhava assim seu dizer ao público de Bestas Letradas e asas cortadas que gastavam sua atenção procurando milho pra comer no chão. Os outros, Nortistas Azuis residentes no topo predial, imunes ao cocorocar filosofal dos fedorentos ocupantes dos porões da pirâmide, continuavam observando em suas lunetas cristalinas (pois conservadas em antigas histórias cristalizadas) qual a próxima De Tal usurpariam, desonestamente, covardemente, para por o rótulo da “ciência” e lucrar para captar novas correntes métricas que haverão de garantir aos seus puros-albinos herdeiros familiares muitas graças para agraciá-los, empregos onde serão patrões e terras que sobram de nossas mentes acorrentadas em gaiolas de MEDO.

KARLINHA DE TAL