Mês: maio 2016

AH, SE EU TIVESSE ASAS… OU, PROGRESSO DAS BESTAS

Por Karla Alves

-Dedico este texto aos meus professores de Historia da URCA, com exceção de três apenas. Mas especialmente a um casal de palermas que aplaudem a imbecilidade um do outro.

Eu vi o trem…

Com vagões cheios de animais enjaulados e confortavelmente adaptados às suas condições. Alegremente iam os animais guiados por um maquinista robô secularmente programado para alcançar sua estação segura dentre limitados portos-seguro, onde havia a promessa de conceder asas a quem lá conseguisse chegar.

Ao lado da locomotiva, cavalos sem selas nem viseiras acompanhavam o trajeto do trem, acreditando que este os levaria ao sobre-solo de onde se podia ver com segurança o resto do mundo e onde haveriam de se tornar cavalos alados; a mais alta patente para a categoria dos cavalos ilustrados.

Oito estações percorria o trem até alcançar o seu destino. Em cada uma destas estações pairava a insegurança e o medo entre os comprimidos e irracionais passageiros de que o maquinista mecanizado e indiferente viesse a esquecer-se de algum animal e seguisse o seu percurso abandonando o pobre bicho ao seu próprio destino.

Eu mesma, como ovelha mansa que fui, tive o desprazer de ser esquecida na estação terceira, onde me abandonei por longos quatrocentos anos para dar à luz a uma pantera. Mas como cordeiro pode procriar um felino? Eu me perguntava sem encontrar esta ou qualquer outra resposta na estação superlotada de esperançosos. Foi então que percebi que a estação era gerenciada por um albino tutor arrogante que se considerava dono da estação, do trem, dos trilhos e até mesmo do maquinista robô e do seu itinerário. “É um estúpido”, eu julguei. Mas os outros animais, ovelhas como eu, o aplaudiam de pé, inflando ainda mais as convicções estapafúrdias do tutor dono do mundo ( para este o mundo não ultrapassava as fronteiras do seu próprio umbigo).

Larguei-me a pensar se nas demais estações ocorria o mesmo processo, pois nas duas anteriores em que havia passado não tinha observado com suficiente atenção para perceber qualquer situação. Dei-me conta de que se não tivesse sido abandonada (por descuido ou destino) naquela terceira estação talvez passasse pelas posteriores sem lhes prestar a mínima observação.

Foi em meio a estas reflexões que escutei o barulho da engrenagem enferrujada se aproximando da estação terceira. Era o trem!!!

Resoluta, me apressei a entrar e chorei ao saber que meu pequeno felino não poderia me seguir. Acenei e parti com ansiedade em dedicar minha atenção para as demais estações a que me destinava, onde os tutores como lobos famintos tentavam nos agarrar às patas para fazer de nós suas eternas presas. Não havia, então, me dado conta do quanto as experiências na estação terceira, em que estacionei a vida, tinham modificado a estrutura do meu ser. Não me adaptava mais à minha antiga jaula e, por este motivo, era constantemente repreendida pelos “bichos-comedores-de-espelhos” que doutrinavam em cada vagão os passageiros do trem com chicotes no lugar da língua e palavras hipnotizantes que não me surtiam mais efeito.

Foi lá pela altura da sexta estação que um “bicho-comedor-de-espelhos” cochichou para um tutor “dono do mundo” sobre o meu comportamento inadequado para àquela ordem do rebanho. O tutor, na sua doutoral missão de me fazer voltar à condição de ovelha, me repreendeu chegando a xingar-me de “agressiva” e, como diria um escritor negro jamais lido em qualquer das estações, eu “nunca imaginei que um insulto pudesse ir tão longe na nossa natureza”.
Corri para a locomotiva e me deparei com meu próprio reflexo no espelho do retrovisor ainda não comido pelos “bichos-comedores-de-espelhos”. Não me reconheci de imediato e tive que fazer diversos movimentos repentinos para me certificar de que o reflexo no espelho corresponderia aos meus gestos. Foi aí que finalmente compreendi: Eu sou uma pantera. Num impulso saltei subitamente do trem em movimento, herdando por isso algumas cicatrizes, e me pus a correr entre os cavalos que, desgarrados, queriam ser alados.

Cheguei, em fim, na oitava e última estação, sem surpresa ou alegria.

Não haviam asas, mas vaidades que, como ópio, simulavam voo.

Permaneço a correr, agora solitária, para continuar a subir horizontes sem me distanciar do chão.

Foto: Nívea Uchôa

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