NEGRO, MAS NÃO O SUFICIENTE. OU SERIAM ALUSÕES DA LIBERDADE?

Por Karla Alves

 

Napoleão era negro valente. Arrastava facão no chão de faiscar caso percebesse algum desacato. De escravizado virou líder. Sua liberdade não cabia dentro de si, daí o negro liberto a fez transbordar de dentro do peito como se fosse rio se despedindo das margens. Desse dia em diante não podia mais abaixar a cabeça, e olhando de cima percebeu que mundo era grande e o horizonte distante.

Foi num dia de sol que dois homens tão alvos quanto o dia, convencidos daquela fama de valente que percorria os vendavais, vieram procurar Napoleão com proposta feita: – “É o seguinte cidadão de bem”

Napoleão sorriu do lado avesso com a expressão ouvida que apesar de inédita não causava estranheza devido a boca que versava

– “Desde o século passado procurávamos um homem para nos fazer um serviço de alta estima”

Napoleão fingia atenção embora sua vontade estivesse no mar… e os dois homens continuavam:

– “Queremos bem feitoria para os negros, libertar a todos desta mancha de nossa história que é a escravidão, cuja manutenção tem servido como entrave para a recuperação de nossa economia. Já não temos mais como sustentar nossos cativos então resolvemos ficar só com os cachorros que é para as crianças não chorarem. E aí pensamos em vossa dignidade para fazer aqui na zona praieira a mobilização que estamos precisando para alavancar nosso projeto. Caso vossa nobreza aceite teremos repercussão suficiente para aparecer no Jornal da Nação contando nossa bem-feitoria, mas não se preocupe, que quando isso acontecer nós permitiremos que o senhor esteja ao nosso lado ouvindo e consentindo tudo que falamos”.

Napoleão fez que sorria. Coçou a cabeça para ver se ativava a paciência. Parece que serviu. Num lapso de segundos pensou nas lágrimas que regaram seus sentimentos de liberdade, nas de suas irmãs, nas de seus companheiros de cativeiro. Lembrou-se então que não havia ninguém para enxuga-las, pois, o escuro da senzala assombra até a mais gloriosa lembrança de zelo. Atravessou entrecortando o olhar claro e ansioso dos que lhe fitavam e, antes que pudesse responder, os dois homens a sua frente anteciparam a intenção de sua resposta:

– “Queremos lhe dizer, Senhor Napoleão, que não pretendemos fazer imposição alguma e nem muito menos deixar que o senhor saia sem nada desta história. Caso o senhor diga sim, iremos recompensar por sua estimada humildade africana” – mas Napoleão era brasileiro – “lhe daremos a honra de ter sua imagem publicada em nossa rede social com a marca de nossa campanha ‘SOL DA LIBERDADE EM RAIOS FULGIDOS’ onde o senhor irá posar de frente e ao nosso lado, comprovando nossa irmandade. Caso o senhor queira, e nós iremos compreender perfeitamente, pode segurar algumas correntes que terão a outra ponta caída no chão, para demonstrar aos seus iguais que o senhor subiu, está ao nosso lado e não os esqueceu, já que está puxando todos eles lá de baixo para subir junto ao senhor. Ah! Claro que, para isso, o senhor terá que cumprir com algumas exigências. Nada muito dispendioso. Mas o senhor terá que falar apenas quando e o que nós dissermos. Qualquer revista, blog, jornal ou estudante universitário que queira lhe entrevistar terá que passar primeiro por nós, afinal nós é que tivemos a ideia de liberdade. O senhor vai ficar famoso, Seu Napoleão, pense bem. Mas caso o senhor se recuse, teremos toda legitimidade possível para considera-lo um desaforado mal-agradecido. Pense bem senhor Napoleão… o senhor é um homem inteligente, pense bem”….

Não precisava… Lá de cima, de onde Napoleão aprendeu a olhar, dava pra ver que nas voltas do mundo a história se repetia como as ondas do mar que lhe chamavam. Foi então que ele respondeu:

– “Não quero não senhor, não sou capacho não senhor, não sirvo mandato não senhor, e isso que voismicê chama de liberdade não é liberdade não senhor. Eu sei reconhecer o barulho do chicote. Agora me dê licença que o mar tá me chamando que é pra eu não embarcar nessa onda de irmandade e voltar pro cativeiro”.

Enquanto Napoleão pegava onda no mar, uma estátua de Zumbi posava inerte e desinformada ao lado dos doutores que exibiam sua campanha no Jornal da Nação, vangloriando a liberdade em raios fulgidos.

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