Mês: outubro 2015

Made in Ceará

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Por Karla Jaqueline Vieira Alves

Nossa identidade femini-na-mente-negra passa por traços e fatos que nem sempre foram testemunhados pela historiografia oficial como, por exemplo, a síndrome do “baianismo”: atitude movida pelo equívoco de achar que toda Preta afirmada no Nordeste brasileiro é baiana, ação na qual o nosso cabelo é o maior alvo desta percepção.

É diante desta e de outras formas de negação social que se forma a nossa identidade, inserida no processo que eu costumo chamar de Dialética Negra: negação > autocontemplação (espelho) > afirmação.

Na primeira etapa, em meio à sociedade que propaga o racismo e a misoginia por todos os meios possíveis (educação, mídia, instituições religiosas, etc.) passamos a sentir uma rejeição por nós mesmas. E o cabelo é o primeiro alvo desta negação. Na segunda fase, quando encontramos uma referência positiva para nos espelharmos, começamos a nos perceber e a aceitar quem somos, como somos. Ao nos contemplarmos surge a autoadmiração, o orgulho de nossa história, de nossas vitórias que inclui a afirmação de nossa identidade. E o cabelo se torna um desafio, pois, alisar já não parece o ideal; e assumi-lo crespo exige coragem. Finalmente, a terceira (e não última) etapa do processo se constitui quando esta identidade já não cabe mais em si e transborda como água em solo fértil para irrigar outras sementes negras guardadas no medo e fazê-las florescer. Nosso cabelo assumidamente crespo se constitui aqui, como o maior símbolo de nossa beleza, de nossa afirmação.

Infelizmente nem sempre chegamos a este último estágio, pois diante de dados sobre as condições sociais, econômicas, afetivas, escolares, de saúde, além da violência exercida pela mídia através da representação colonial da mulher negra nos programas de televisão, percebe-se que tanto no campo das relações objetivas materiais, quanto no campo das subjetividades, somos nós, mulheres negras, as que mais sofrem o impacto das diversas manifestações da violência racial.

Daí a necessidade de referenciais de Mulheres Negras protagonistas de sua própria história, para que possamos nos contemplar em histórias de mulheres negras vitoriosas.

Salve Simoa e todas as mulheres negras cearenses!

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Por Karla AgreSilva

Salve Maria de Araújo
De quem roubaram o túmulo e a memória
Salve Simoa
Sepultada nos escombros de uma história laureada
Salve as negras nordestinas
De um Ceará que nos nega a existência
Quantas mais esconderam de mim?
Quero avisar que de nada adiantou
Nos cemitérios da história
Eu aprendi a farejar
O raio de Iansã será farol pra me guiar
Minha voz é trovão
Que precede tempestades
Faz soar mil ecos em um só grito
Arrasando os vermes da esperteza vil
Mas você,
contido em sua linearidade oposta ao circulo que me conduz,
é muito pouco pra entender, pra sentir, pra saber.
Você me insulta do verbo impróprio ao silencio indevido
Sua porta fechada não vai me deter
Não vai me impedir de te fazer compreender
Que sou Atlântica, Terreiro, Ilê
Terra Mãe que te pariu pra me enjeitar
Pra onde tua carcaça, asco e poeira
Um dia certamente irá voltar
Pois não deixo dormir àqueles que me devem
CORvicção de minha condição
Consciência negra revertida em ação

Negras Mulheres de ontem, de hoje e do amanhã juntas na MARCHA DAS MULHERES NEGRAS 2015

NEGRO, MAS NÃO O SUFICIENTE. OU SERIAM ALUSÕES DA LIBERDADE?

Por Karla Alves

 

Napoleão era negro valente. Arrastava facão no chão de faiscar caso percebesse algum desacato. De escravizado virou líder. Sua liberdade não cabia dentro de si, daí o negro liberto a fez transbordar de dentro do peito como se fosse rio se despedindo das margens. Desse dia em diante não podia mais abaixar a cabeça, e olhando de cima percebeu que mundo era grande e o horizonte distante.

Foi num dia de sol que dois homens tão alvos quanto o dia, convencidos daquela fama de valente que percorria os vendavais, vieram procurar Napoleão com proposta feita: – “É o seguinte cidadão de bem”

Napoleão sorriu do lado avesso com a expressão ouvida que apesar de inédita não causava estranheza devido a boca que versava

– “Desde o século passado procurávamos um homem para nos fazer um serviço de alta estima”

Napoleão fingia atenção embora sua vontade estivesse no mar… e os dois homens continuavam:

– “Queremos bem feitoria para os negros, libertar a todos desta mancha de nossa história que é a escravidão, cuja manutenção tem servido como entrave para a recuperação de nossa economia. Já não temos mais como sustentar nossos cativos então resolvemos ficar só com os cachorros que é para as crianças não chorarem. E aí pensamos em vossa dignidade para fazer aqui na zona praieira a mobilização que estamos precisando para alavancar nosso projeto. Caso vossa nobreza aceite teremos repercussão suficiente para aparecer no Jornal da Nação contando nossa bem-feitoria, mas não se preocupe, que quando isso acontecer nós permitiremos que o senhor esteja ao nosso lado ouvindo e consentindo tudo que falamos”.

Napoleão fez que sorria. Coçou a cabeça para ver se ativava a paciência. Parece que serviu. Num lapso de segundos pensou nas lágrimas que regaram seus sentimentos de liberdade, nas de suas irmãs, nas de seus companheiros de cativeiro. Lembrou-se então que não havia ninguém para enxuga-las, pois, o escuro da senzala assombra até a mais gloriosa lembrança de zelo. Atravessou entrecortando o olhar claro e ansioso dos que lhe fitavam e, antes que pudesse responder, os dois homens a sua frente anteciparam a intenção de sua resposta:

– “Queremos lhe dizer, Senhor Napoleão, que não pretendemos fazer imposição alguma e nem muito menos deixar que o senhor saia sem nada desta história. Caso o senhor diga sim, iremos recompensar por sua estimada humildade africana” – mas Napoleão era brasileiro – “lhe daremos a honra de ter sua imagem publicada em nossa rede social com a marca de nossa campanha ‘SOL DA LIBERDADE EM RAIOS FULGIDOS’ onde o senhor irá posar de frente e ao nosso lado, comprovando nossa irmandade. Caso o senhor queira, e nós iremos compreender perfeitamente, pode segurar algumas correntes que terão a outra ponta caída no chão, para demonstrar aos seus iguais que o senhor subiu, está ao nosso lado e não os esqueceu, já que está puxando todos eles lá de baixo para subir junto ao senhor. Ah! Claro que, para isso, o senhor terá que cumprir com algumas exigências. Nada muito dispendioso. Mas o senhor terá que falar apenas quando e o que nós dissermos. Qualquer revista, blog, jornal ou estudante universitário que queira lhe entrevistar terá que passar primeiro por nós, afinal nós é que tivemos a ideia de liberdade. O senhor vai ficar famoso, Seu Napoleão, pense bem. Mas caso o senhor se recuse, teremos toda legitimidade possível para considera-lo um desaforado mal-agradecido. Pense bem senhor Napoleão… o senhor é um homem inteligente, pense bem”….

Não precisava… Lá de cima, de onde Napoleão aprendeu a olhar, dava pra ver que nas voltas do mundo a história se repetia como as ondas do mar que lhe chamavam. Foi então que ele respondeu:

– “Não quero não senhor, não sou capacho não senhor, não sirvo mandato não senhor, e isso que voismicê chama de liberdade não é liberdade não senhor. Eu sei reconhecer o barulho do chicote. Agora me dê licença que o mar tá me chamando que é pra eu não embarcar nessa onda de irmandade e voltar pro cativeiro”.

Enquanto Napoleão pegava onda no mar, uma estátua de Zumbi posava inerte e desinformada ao lado dos doutores que exibiam sua campanha no Jornal da Nação, vangloriando a liberdade em raios fulgidos.