Mês: maio 2015

ENTRE ESTRELAS, LUTAS E VITÓRIAS, EU APENAS QUERIA DIZER QUE SOU HEROÍNA DE MIM MESMA

Por Jéssyca Diniz

E eis que me deparei com algumas situações, umas bem (in)relevantes,
outras bem reflexivas e, as mais importantes, minha conclusões sobre o
brilho.

Pois bem, muitas vezes passamos noites acordadas estudando,
articulando fala, vendo vídeos, debatendo, escrevendo e afins…
Nossos resultados nem sempre são dos mais positivos, mais bonitos, mas
significativos… Muitas vezes, meia dúzia de pessoas vão nos ouvir
(não apenas as Simoas, mas creio isso ser retrato de muitos movimentos
por ai)…

A grande mídia forja nossos resultados, nossa luta, nossas causas…
Querem nos condicionar a causas vitimistas, desnecessárias, falam em
direitos iguais a todos, mas o menino preto de rua passa ao lado da
escola de elite com parquinho (onde não pode estar pois segundo a
meritocracia: ele não se esforçou para merecer!!??), nessa mesma
escola, o homem da calçada que vigia a escola, a faxineira que vai
limpar a sala (após a aula de história do Brasil; Geografia humana;
Literatura Portuguesa e afins), o motorista dos “clientes” da
escola… Todos pretos… Talvez não seja, segundo as normas da ética
dizer o endereço dessa escola. Contudo, acredito ser étnico dizer que
essa escola está localizada em todo território nacional, nação essa,
(Onde se lê, se ouvi e se indigna com os Slogans: “Um País de todos”,
“Avançando nas mudanças”, “Pátria Educadora”).

Não sei se cabe aqui colocar o emblemático: “Brasil 2014: uma pátria
de chuteiras”, pois infelizmente, essas chuteiras… Na fonte nova, no
Castelão, no Maracanã (e nas outras Arenas), essas chuteiras chutaram
o menino negro, a mãe gestante, a comunidade em torno da Arena (Onde
por Arena, também trucidaram, espancaram, humilharam nosso povo.
Talvez dai o nome suntuoso, glamoroso e no fundo de cunho escravocrata
de Arena? “Onde cada cassetete é um chicote para o tronco”? Dolorosa
interrogação).

Como encontraremos forças de ser militante sabendo que enquanto nos
articulamos, o sistema nos ridiculariza, como ser militante sabendo
que enquanto uso meu black, meu turbante, a menininha na escola está
sendo coagida a se mutilar (alisar o cabelo) e o menino a raspar
baixinho os crespos para serem aceitos, e a pedagoga que não foi
instruída, muitas vezes não sabe nem buscar respostas de
intervenções??

Como ser militante se vertentes dos próprios movimentos sociais
dizem?: Não é preciso construir um movimento negro aqui… Ahhhh meus
caros, “Apesar de você amanhã há de ser outro dia”… E não
aceitaremos nunca ser “Quarto de despejo”.

Volto agora ao topo do texto e digo, isso eu não vou relevar, lutarei,
simplificarei, tornarei complexo se preciso for, até desenho para uma
melhor assimilação… Mas alguém me ouvirá, virão, gritarão junto
comigo (Não por perceber que minha voz cansada e garganta seca começam
a falhar) Gritarão comigo pois gritei por seus nomes: Marias; Joãos;
Dayses; Daianes; Pablos… E logo em seguida gritarei seus sobrenomes:
Lutar por respeito; mostrar nossa cara; nossa cor; chega de
injustiça… Esses nomes e sobrenomes serão ouvidos, reconhecidos,
ressoados e ampliados a outras tantas Marias; Darc’s; Adrianos…
Gritarão por Karlas; Marlucias e tantos outros. Pouco provável isso,
utópico? Não para mim, isso será a minha realidade, e hoje é o meu
sonho.

Sobre os sonhos, certa vez um grupo de jovens de, um certo, Clube da
Esquina falaram: “ Os sonhos não envelhecem”. Esquinas são locais de
Exus e pombas giras (mensageiros e responsáveis por abrir caminhos),
esquinas são locais de amplas possibilidades… Então, que nossos
gritos passem “caminhando e cantando” por essas esquinas, que Iansã a
deusa dos ventos e do fogo ajude a espalhar esses nomes e sobrenomes,
aquecendo lhes o coração. E que essa mensagem seja tão leve “como as
primeiras chuvas do caju” que seja massa, que nos reconheçamos como
amigos em uma grande feira livre, e por que não dizer: “Que seja
doce”.

Ser militante às vezes é como ser caçador de estrelas cadentes, lemos
sobre elas, suas características passamos noites acordadas atentas,
sem piscar, rezando para elas aparecerem… Triste, chato, e por que
em vez de estrelas cadentes não observar constelações?
Sobre as constelações, elas já estão lá, já referenciaram civilizações
por milênios, já estão imóveis, intactas, são lindas… Eu gosto mesmo
é das estrelas cadentes, são desafiadoras, efêmeras e quando menos
esperamos, elas cruzam o céu e ao final do seu percurso (até onde os
olhos podem ver) elas vão piscar… E esse piscar, é o sinal que
recebo de que valeu a pena, que não estou sozinha… Que ela vai
explodir que no futuro essas explosões certamente formarão outras
constelações, que orientarão civilizações, que servirão de base que
atrairão outras estrelas cadentes…
Assim é nossa militância, nossa luta, muitas vezes nossas ações no
fundo serão vistas por alguma única estrelinha em meio a inúmeras
constelações, contudo essa estrelinha que lá na frente, certamente
quando perdermos de vista vai brilhar, vai explodir, vai atrair outras
estrelinhas que explodirão, e assim é o curso da vida, não sei ao
certo embora desejo muito ver tamanhas explosões, ver brilhos (és aqui
minhas conclusões sobre brilho no topo do texto para quem não
contextualizou) e afins.

És aqui minha conclusão maior, de que se no futuro (espero bem
distante) meus filhos, netos, amigos, estrelas perguntarem se valeu a
pena, pois meu nome não está estampado nos livros… Eu vou dizer que
minha história oficial eu mesma escrevi (enquanto ouvia e ouço desde
os meus 10 anos de idade, um som de agogô e atabaque que ressoam na
minha memória), que na minha história fui e sou heroína de mim mesma,
que em minha cabine de comando ecoavam vozes e articulações de Mahims;
Dandaras; Simoas; Carolinas e Suelis… Que itãns de orixás eram
reflexos de destreza e sabedoria…

E ainda como se cantando uma canção: “Começaria tudo outra vez, se
preciso fosse meu amor, a chama ainda queima saiba, nada foi em
vão…”. “Eu apenas queria que você soubesse que aquela alegria ainda
está comigo, que a minha ternura não ficou na estrada, não ficou no
tempo presa na poeira…”.

Sou Jéssyca T’Oiyà, filha da dona Maria Lourdes, do Medeiros, irmã do
Juddson. Sonho e luto, pois os sonhos não envelhecem e a luta me
resignifica…
Um grande Asè a todxs…

Esse texto começou ser escrito com os questionamentos da preta Amanda
AgreSilva sobre continuar, se indagar, indignar-se. Contudo coloquei
outras inquietações minhas e espero que sirva de estimulo a vc preta
Amanda, caçadora de estrelas.
Mas ele não é apenas para estimular ou alegrar você, gostaria de
dedicar a três mulheres muitos especiais… Uma não é do grupo, mas
ela me escreveu, é a minha mãinha…
As outras duas são a preta Karla Desaforada AgresSilva por ser de
certo modo a caçadora de estrelas que me encontrou, me deu a mão, me
apontou o caminho de explosões… E a pretinha Dávila Feitosa, minha
que vai longe, não apenas geograficamente falando, mas uma estrelinha
que já cruzou horizontes e explode, explode e explode… Todas as
pretas Simoas são especiais, mas vocês, como disse o outro poeta:

“és parte ainda do que me faz forte”.

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