Mês: fevereiro 2015

A ARTE DE PREVENÇÃO CONTRA NEGR@S POLITIZAD@S

Por Dávila Feitosa

Neste meu pequeno e intenso percurso de militância negra, fui denominada de abusada, radical e juntamente com minhas companheiras pretas de AGRESSIVA, isso lançado na maioria dos casos no âmbito da Universidade. No dicionário a palavra agressiva significa: Que tem caráter de agressão, voltado para o ataque, lutador, jogador agressivo, provocador.

O racismo é a prática de humilhação contra negr@s, desde um escrito racista na porta de banheiro até a violência policial que atira, arrasta e mata o corpo negro. É a crença de superioridade de um grupo (branco) em detrimento de outro (preto). E há muitos que acreditam nele e assim o perpetua.

Cuti (2010) em seu artigo denominado: Quem tem medo da palavra negro

Diz o seguinte:

“ Se um indivíduo diz que ele é o Super- Homem, está querendo dizer que tem poder mais que os outros. O sentimento de superioridade congênita, por que se tem a pele e olhos claros, nariz estreito e cabelo liso é uma doença psíquica. Como é uma doença psíquica que atinge muitas pessoas, torna-se uma patologia social.”

Com isso, as diversas formas de discriminação racista passa a ser compreendida nas relações raciais, tornando-a cotidiana e normativa, invisibilizadas, “inexistentes”

Cuti (2010) também explica que, nos casos de patologia social, ou seja, doença coletiva, quem procura curá-la, trata-la, erradica-la é considerado o doente. O que acontece é uma inversão.

Isso me faz refletir que nós (Pretas Simoa) mulheres negras, militantes e atuantes em diferentes momentos e contextos contraímos tais “rótulos” a partir do nosso discurso, ações, por nossa cara preta invadindo espaços considerados não nossos, por lutar diariamente pela igualdade racial.

O mesmo autor fala que:

“A frase atribuída a Luís Gama – Todo escravo que mata o seu senhor comete um ato de legítima defesa” –, se traduzida para o contexto racista da vida cotidiana brasileira atual, implica na legitimação da lei milenar “Olho por olho, dente por dente”. […] Quem discrimina há de ficar desconfiado que a vingança está a caminho, mesmo que a água do lago esteja parada. Esse é o lado do assombro: para o racista, todo negro significa uma iminente possibilidade de revide daquilo que sofreu ou sofre, ou, ainda do que poderia sofrer. Na época colonial, os escravizadores usavam a técnica da violência preventiva. Para lermos o presente das relações raciais no Brasil, temos de considerar o significado daquilo hoje. A prática discriminatória é uma intimidação que funciona no dia a dia como uma atitude preventiva dos brancos racistas contra o que os assusta. Um negro com poder, para a consciência e, sobretudo, inconsciência racista, só pode significar a prática da vingança.

Ou seja, aos olhos da sociedade racista normativa somos doentes e com isso se acham no direito de nos classificar como agressiv@s e seus diversos sinônimos.

E sim! Continuaremos agindo “agressivamente”, denunciando os casos de racismo, intervindo na sociedade com nossos gritos de ordem, palestras, oficinas, capacitações, estudos, escrevendo nossos artigos, poemas e poesias.

Temos nas mãos armas historicamente negadas – A caneta e o papel – Nossa vingança é a Lei 10.639/03, são as cotas raciais nas universidades e nos concursos públicos federais. E isso é pouco diante da dívida histórica conosco, queremos muito mais.

SOMOS TOD@S AGRESSIV@S

 

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