COTAS PARA BRANCOS???

Embora sejamos um grupo declaradamente a favor das cotas sociais e raciais, o tema aqui não é justificar o posicionamento de quem se diz contra ou a favor.

O fato é que uma garota branca de olhos azuis optou por uma vaga no sistema de cotas raciais mesmo havendo outras opções de cotas referentes à baixa renda.

Mesmo que venham argumentar que ela tenha uma avó negra ou um bisavô negro e que por isso ela acreditou que estava fazendo o que achava certo fazer validada no direito a mestiçagem, para nós Negras (independente da árvore genealógica dela ter algum antepassado escravizado) trata-se de uma atitude feita por alguém que se considerou com poder para fazê-lo. Mas e nós negr@s, temos poder para nos apropriar dos privilégios historicamente reservados para a população eurodescendente do nosso país?

No sistema de cotas uma branca pode se passar por uma negra para se beneficiar do programa, né? Mas em que caso uma negra pode se passar por uma branca para gozar dos privilégios socialmente destinados a pessoas não negras? No mercado de trabalho? No atendimento à saúde pública? Nos índices de escolaridade? Porque será que a polícia não leva em conta o avô branco do meu irmão na hora de julgá-lo como elemento suspeito que quase sempre resulta em prisão injustificável? Porque @s branc@s não vão se passar por negr@s no Sistema Carcerário?

Quando o assunto é IGUALDADE todo mundo quer se incluir, mesmo sem se questionar ao Que ou a Quem quer se tornar igual. Mas quando o assunto é REPARAÇÃO ou ajuste de contas para promoção da igualdade ou, mais precisamente, quando o assunto é políticas de ação afirmativa para negros, todo mundo quer reclamar afirmando se tratar de “privilégios”, principalmente a lei de cotas raciais, preferindo ignorar outros modelos de cotas que este país implantou para beneficiar ruralistas e imigrantes europeus, a exemplo da Lei do Boi de 1968, da Política Imigratória de 1874 e do Decreto 528 de 1890. Embora estes exemplos de cotas tenham definido o modelo de desenvolvimento econômico do nosso país que privilegiou uma parcela pálida da população, as cotas raciais permanecem falaciosamente figurando como “vantagens” para a população negra que insiste em se “vitimar” diante de um passado supostamente superado.

Uma das causas desse discurso é o mito da democracia racial, que por sermos um país mestiço vivemos em plena harmonia. Não existindo, portanto, nenhum conflito ou diferença de tratamento com base no critério racial. No entanto, dados nos confirmam as disparidades de privilégios de um grupo (branco) em detrimento do outro (negro), nos diversos aspectos: expectativa de vida, acesso a emprego, escolaridade entre outros.

É importante destacar que o Brasil possui a maior população negra do mundo depois da Nigéria. Não obstante, vivemos ainda como em campos de concentração, grilhões e correntes aos nossos pés. “Até os anos 50 quase 70% dos negros no Brasil eram analfabetos.”
As ações afirmativas não surgem do nada. Trata-se de uma reparação histórica. Uma conquista do povo negro.
“Este, por muito tempo, foi um país da democracia racial. Um país condenado ao futuro. E um futuro necessariamente de cachos louros” (Jurema Werneck).

PRETAS SIMOA – Grupo de Mulheres Negras do Cariri

catsyy

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