EI, PSIU, DÁ LICENÇA QUE O CORPO É MEU!

Uma análise da representação social do corpo da mulher negra.

Muito se questionou sobre “qual o problema” com a série global “Sexo e as nêga”, havendo inclusive uma estratégia apelativa de fragmentação da problemática que, ao dividir a pergunta em “é o sexo” (?), “é as nega” (?), recorre ao velho artifício de separar para enfraquecer, pois o problema não se encontra no significado isolado de cada termo já que é a associação de um termo ao outro que conota a carga histórica de opressão sobre o corpo da mulher negra no Brasil revelando, ainda, uma conformação social no que se refere à nossa imagem, uma vez que o nosso protesto é que vem provocando desconforto em boa parte do país do “Somos todos macacos”, que é incapaz de perceber a insistente lembrança do cativeiro propagada pela mídia.

Embora o panorama não se deixe aprisionar por apenas um dos termos, isolado em seu significado, vale destacar que o sexo é aqui apresentado como modelo de sociabilidade que, ao ser associado ao termo de cunho pejorativo “nêga”, revela uma das especificidades do racismo à brasileira em seu caráter não oficial: negado publicamente, mas praticado na intimidade.

Não se trata apenas de uma crítica à mídia brasileira, mas ao pensamento social reforçado pelos estereótipos apresentados em programas como o da Rede Globo, uma vez que a análise sobre a representação social do corpo da mulher negra possibilita entender a estrutura de uma sociedade.

Porque a vinculação entre sexo e mulher acontece com mais frequência com a mulher negra? Porque a mídia se sente mais a vontade para fazer esse tipo de vinculação? Acontece que admitir o título do programa em questão como racista é ter que se admitir propagador dessas mesmas ideias, pensamento este que gira em torno do lugar social estabelecido para a negra e que é muito bem reforçado pela mídia. Quem nunca ouviu uma mulher atingida em seu pudor retrucar a ofensa com a frase “me respeite que eu não sou tuas nêgas”? O que faz esta sociedade pensar que com as “nêgas” se pode tudo, inclusive ofender? Qual o problema com as “nêgas”?

O problema é que a carga histórica sobre este termo o torna uma semântica opressiva e, portanto, impossível de ser encarada como uma expressão neutra. Por isso não adiantaria simplesmente substituir o termo por outro para sanar a questão. Não adiantaria, por exemplo, substituir o termo “nêga” no título da série por “sexo e as deputadas” ou “sexo e as advogadas”, pois estes são exemplos socialmente concebidos como sujeitos e, portanto, com uma carga valorativa positiva. Ao contrário, o termo “nêga” (que nunca foi concebido como sujeito) se refere não só a uma cor de pele, mas se caracteriza como um adjetivo depreciativo e ao ser publicamente propagado revela as sutilezas perversas do cotidiano de uma sociedade fundada na cultura de negação do racismo, o que impossibilita discutir o problema com seriedade.

A antropóloga Lilia Moritz Schwarcz em seu artigo intitulado “Gilberto Freyre: adaptação, mestiçagem, trópicos e privacidade em Novo Mundo nos trópicos” (2010), confronta diversos aspectos acerca das relações sexuais entre Senhores e escravas no Brasil colônia apresentados por Gilberto Freire e irá concluir que o Brasil é um país dependente do cativeiro negro, uma vez que a relação sexual entre o senhor e a escrava se devia a circunstâncias históricas (como, por exemplo, a insuficiência de portuguesas frente ao numero de portugueses que aqui habitavam) e não ao suposto “afeto” apresentado por Freire. Já o historiador Clóvis Moura em seu “Dicionário da escravidão negra no Brasil” (2004) nos apresenta a estreita relação entre escravidão e prostituição, norma esta fomentada tanto pelos senhores quanto pelas senhoras de escravas que se valiam do artigo 179 da Constituição do Império que garantia o uso da “propriedade” em sua plenitude. Assim, homens e mulheres donos/ donas de escravas submetiam suas “peças” ao meretrício por se considerarem donos/ donas da vida, da morte e, portanto, do sexo de suas escravas. Trago esta referência para ilustrar que (1) a economia nacional permanece aliada à exposição e exploração sexual da mulher negra, (2) o lucro obtivo com os programas exibidos na televisão brasileira permanece dependente do cativeiro negro, uma vez que necessita apresentar a mulher negra sob a forma de estereótipos como a mulata sensual, indivíduo exótico, pessoa que depende da ajuda da pessoa branca, bandida ou mendiga e (3) que persiste no Brasil a manutenção diária do pensamento colonial que reconhece no corpo da mulher negra um objeto publico.

“Sexo e as nêgas” é a mais perfeita combinação entre exclusão e assimilação cultural e expressa um racismo que se esconde por trás de uma suposta universalidade das leis ao sugerir que o “sexo livre” é um direito de todas as mulheres, quando na verdade discrimina que o sexo “das nêgas” é de quem/ pra quem quiser. Aqui, o corpo funciona como marca dos valores sociais e nele a sociedade fixa seus sentidos e valores. Neste sentido, o corpo da mulher negra está revestido de um sentido particular de expropriação, publicamente censurado e intimamente consentido.

Eu deixo aqui um aviso: O MEU SEXO É PRIVADO! E como sugestão, indico que se produzam séries sobre as personagens históricas invisíveis na memória nacional como Luíza Mahin, Antonieta de Barros, Preta Zeferina, Felipa do Pará, Preta Tia Simoa, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Carolina de Jesus e tantas outras ativistas e intelectuais negras que, se fossem representadas na telinha, demostrariam um avanço na mentalidade racista e colonial que mantém seus pés enfincados na ignorância.

Karla Alves

Grupo de Mulheres Negras do Cariri – PRETAS SIMOAS

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