(DES)MISCIGENAÇÃO – por Amanda AgreSilva Janice

Nunca perdi minha identidade, roubaram-me. Durante toda minha vida fui metodicamente levada a não ver a mim mesma, a distorcer minha visão até que eu enchergasse apenas aquilo que eles queriam, o que era mais seguro ser visto, mais confortavel. Virei morena, cabocla… Mulata, uma versão mais escurinha da mulher branca, num lugar onde cor não passa de cor e todo mundo é tratado igual, misturado.

Onde, tudo que eu via ser diferente para mim, o tratamento, a forma de ver a beleza, era algo da minha cabeça. Fulana não é mais bonita por sua aparencia de branca, mas por ser bonita, você é feia por causa do seu “cabelo mal cuidado”, não sua cor. Você se sente mais a vontade com essas meninas mais escurinhas que nem você e do “cabelo mal cuidado” que nem o seu, porque são amigas suas, isso não tem nada a ver com cor. Você teve sua auto estima dilacerada, ao ponto de não ter coragem de denunciar aquele garoto que passa a mão em você na escola, porque as pessoas são malvadas e você é fraca demais pra fazer algo contra, isso não tem nada a ver com cor.

Com o passar dos anos fui convencida que nunca havia sofrido nada, de que era tratada igualmente, que meus problemas se resumiam ao machismo e que o espelho me mostrava uma branca brozeada, do cabelo feio, nariz grande e lábios grossos, porque onde eu fui criada, negro era xingamento, então eu tinha de me afastar daquilo, negros sofreram, eles, não nós, não eu.

Tive de me adaptar a minha “realidade” de morena, branca bronzeada e o fiz como tantas outras o fazem, deixei o cabelo liso, a parte que me era “feia e mal cuidada”. Fui então aceita e por ser aceita reconstrui minha auto-estima e só então passei a me ver. De bronzeada passei a morena, emancipei meu black, me olhei no espelho e vi uma cor, forte, linda, minha cor, minha raça, minha dor e minha luta.

Mulata e morena não mais, agora sou negra, PRETA! E nunca mais ninguém vai me roubar isso.

Amanda AgreSilva Janice.

Obrigada Pretas Simoa, sem vocês eu não teria conseguido.

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1 comentário

  1. Emocionante para mim assistir a (re)descoberta de um amor a si. Dialética de nossos corpos, negras, que enfrenta o conflito social até chegarmos a um feliz encontro com nossa alma, nossa pele, nosso cabelo, nosso ser femininamentenegra!!!!

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