Mês: maio 2014

NOTA PÚBLICA DE PROTESTO

NOTA DE PROTESTO, 07 de Maio de 2014 – Cariri, CE

O Pretas Simoa, Grupo de Mulheres Negras do Cariri, vem a publico protestar em forma de denúncia contra mais um caso de racismo na Universidade Regional do Cariri (URCA), bem como demonstrar sua total revolta contra a administração superior desta IES, que vem agindo de maneira relapsa ao não tomar medidas cabíveis de enfrentamento ao crime cometido nas dependências do campus Pimenta, em Crato/CE, e ao não prestar qualquer tipo de apoio e assessoria à vítima.

No dia 13 de Março desse ano, Pedro Victor Araújo, estudante do curso de História, encontrou seu nome pichado em um dos banheiros da universidade, com os seguintes dizeres: “Pedro Victor anêmico desgraçado. Morre seu negro”. Na época, o rapaz teve múltiplas convulsões, mas recebeu apoio do nosso grupo e de outros estudantes e ativistas de movimentos sociais que, na ocasião, estavam cobrando da administração da URCA a prestação de amparo ao estudante e a abertura de investigação do fato.

Depois de realizarmos um protesto no campus Pimenta e termos alcançado visibilidade nacional, a administração da universidade publicou um texto assumindo alguns compromissos, citados abaixo:

“1 – Formação de uma comissão de sindicância para investigar a autoria das inscrições insidiosas e criminosas contra o estudante;
2 – Determinou a Pró-Reitoria de Extensão que propusesse aos cursos um programa interdisciplinar de combate ao preconceito e discriminação, com ações nas diversas áreas do conhecimento;
3 – Está restabelecendo a Comissão de Direitos Humanos da URCA;
4 – Está deflagrando uma campanha de denúncia do preconceito e da discriminação.”

Até a semana do dia 1º de Maio, a vítima ainda não tinha sido procurada e nem recebido qualquer auxílio, quando mais um grave fato ocorreu: Pedro Victor recebeu uma carta com ameaça explícita de morte, novamente fazendo referência à sua cor, em tom discriminatório e racista. Na carta anônima, deixada dentro de seu caderno, pode-se ler as seguintes palavras: “Seu desgraçado, se prepare que dessa vez vai acontecer coisa pior. Se prepare para morrer. Seu negro de merda. E dessa vez vc vai ter o q merece por que nada lhe aconteceu ainda. Mas lhe digo, se prepare para MORRER”.

Na última noite, dia 6 de Maio, houve uma mesa redonda nas dependências da universidade, com a dita intenção de “combater o preconceito”. No entanto, não estiveram presentes a Reitora e nem o Vice-Reitor da Instituição; somente contamos com a presença de um único representante da administração da URCA, que estava ali para mediar a mesa.

Quando manifestamos a nossa indignação diante de tamanho descaso e omissão, o mediador afirmou que “não se pode combater racismo com ‘agressividade’ ou com ‘oba-oba”, numa aguda desvalorização de nossa luta e sofrimento. Enquanto mulheres negras militantes, nos sentimos ofendidas e desrespeitadas pela desqualificação a nós direcionada.

Na manhã de hoje, após todo esse lamentável acontecimento, mais uma vez em meio a tamanha frustração e abalo emocional, Pedro Victor sofreu quatro (4) convulsões seguidas, sendo amparado por estudantes da Universidade e logo em seguida levado para o Hospital São Francisco, em Crato/CE. A reitora responsável foi procurada, mas não ofereceu qualquer apoio a vitima.

Solicitamos ao médico que fizesse um atestado de uma semana para que o rapaz pudesse descansar junto de sua família e continuamos na luta para que a Universidade tome as devidas providências.

Agradecemos aos que leram essa atualização dos fatos até aqui e fazemos um apelo nacional para que todos os que se sentirem sensibilizados e indignados nos ofereça apoio, enviando mensagens de cobrança à URCA, compartilhando as notícias dos fatos nas redes sociais e se juntando a nós nessa batalha. Precisamos de apoio para que nossas forças não sejam suprimidas.

O que está acontecendo com Pedro Victor é também responsabilidade institucional, pois a Universidade tem a obrigação de acolher o estudante e oferecer todo o suporte necessário para que o mesmo continue a exercer suas funções acadêmicas, como assistência jurídica, acompanhamento psicológico e atendimento médico. Esse tipo de atenção deveria ter sido garantida desde a primeira ocorrência.

Gostaríamos de lembrar aos responsáveis pela administração da URCA que o caso de Pedro Victor se torna cada vez mais grave e motivo para processos e investigações judiciais. Também queremos afirmar que não nos deixaremos abrandar e nos uniremos com ainda mais persistência para tornar a vergonha da URCA um caso conhecido em todo o país. Omissão também é crime, e quem possui poder para agir e não cumpre com sua competência também é legalmente responsabilizado pela ausência que gera danos físicos e morais.

Atenciosamente,

Grupo de Mulheres Negras do Cariri – Pretas Simoa

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