Mês: março 2014

AS FILHAS DESTE SOLO

Por Karla “AgreSilva” Alves

A Preta “Tia Simoa” foi uma negra liberta que, ao lado de seu marido (José Luís Napoleão) liderou os acontecimentos de 27, 30 e 31 de janeiro de 1881 em Fortaleza – Ce , episódio que ficou conhecido como a “Greve dos Jangadeiros”, onde se decretou o fim do embarque de escravizados naquele porto, definindo os rumos para a abolição da escravidão na então Província do Ceará, que se efetivaria três anos mais tarde. No entanto, apesar de sua importante participação para a mobilização popular que impulsionou os acontecimentos, esta mulher negra teve sua participação invisibilizada na história deste Estado onde, ainda hoje, persiste a falsa premissa da ausência de negr@s.

As mulheres negras cearenses são comumente indagadas sobre sua origem e constantemente remetidas à Bahia, principalmente se não submetem seus cabelos a processos de alisamento. Esta não aceitação de nossa identidade se deve a cruel associação d@ negr@ à condição de escrav@, que no caso do estado do Ceará, teve seu processo diferenciado das principais capitanias importadoras de mão de obra escravizada devido a suas condições climáticas e geográficas, o que não significa dizer que aqui não tiveram escrav@s ou que não existiram negras e negros livres, a exemplo da “Tia Simoa” que, além de liberta lutou pela liberdade de seu povo, evidenciando uma expressiva característica da população negra (escravizada ou liberta) deste período que ultrapassa a visão dicotomizada entre o conformismo e a resistência, pois demonstra “uma experiência construída historicamente pela etnia negra” (FUNES) estabelecida através de sua sociabilidade, engajamento e luta inserida em seu cotidiano.

A ausência desta documentação histórica se repete no tocante as demais lideranças negras que atuaram no restante do país como Luíza Mahin (Ba), Mariana Crioula (Rj), Tereza de Benguela (Mt) dentre tantas outras que poderiam figurar na lista de resistência e resiliência negra feminina mas que são invisíveis na historiografia oficial do país, bem como na história do feminismo brasileiro que desconhece o extenso histórico de enfrentamento político e social da mulher negra no Brasil. A omissão desta representação na história oficial perpetra o imaginário social e destina, controla e manipula a subjetividade desse contingente significativo de mulheres no Ceará, assim como no restante do Brasil que, além de não veem suas demandas específicas inseridas no debate sobre feminismo também não se percebem nos principais embates simbólicos travados no bojo dessa importante organização política.

Atrelando o conceito de gênero ao de “raça”, onde ambos descartam o discurso biologizante das diferenças para se deterem ao campo semântico do conceito abreviado de “mulher negra”, devemos considerar que este é, sobretudo, um conceito determinado pela estrutura da sociedade e pelas relações de poder que a conduzem. Dessa forma, conhecer a história de Simoa, mulher negra cuja história está submersa entre os escombros da memória é, pois, estabelecer um sentido de pertencimento a um grupo social historicamente invisibilizado no estado do Ceará. Ao sabermos da influencia que as representações históricas exercem na organização social poderemos compreender de que forma o discurso, inserido no pensamento social, contribui para a construção das relações que se estabelecem neste meio.

Ao eleger os sujeitos de uma representação histórica, estamos exercendo o que Bourdieu chama de “poder simbólico” (2006, p.14), pois estamos nomeando um objeto constituído na enunciação. Compreendendo o discurso como campo de exercício deste poder e, portanto, como instrumento de dominação, ele assim se efetua ao tomar reconhecimento e se concretiza ao tornar-se uma representação social ideologicamente estruturada, vindo a contribuir significativamente para a construção da realidade.

Com isso quero dizer que, ao buscar conhecer a estrutura socioeconômica dos responsáveis pela produção e reprodução deste discurso, podemos entender como se formaram as configurações ideológicas acerca da imagem da população negra no Ceará, sobretudo no discurso do período pós-abolição, onde se elegeu os sujeitos para representarem o movimento abolicionista ao mesmo tempo em que sepultava a memória dos “atores” esquecidos. É por meio do poder simbólico que a historiografia oficial tende a forjar a “não presença” de negras e negros no estado do Ceará e, assim, a naturalizar essa invisibilidade por meio da reprodução deste discurso no âmbito educacional perpetrando o imaginário social.

É, portanto, percorrendo o itinerário oposto que buscamos desvendar os elementos para compor nossa representação histórica a partir do protagonismo de mulheres negras que tiveram sua participação omitida nos discursos sobre a série de ações de resistência e de enfrentamento à escravidão, como no caso do movimento abolicionista no Ceará que resultou em uma abolição pioneira no Brasil e que este mês completa 130 anos, nos levando, mais uma vez, a refletir sobre os desdobramentos deste processo no bojo dos discursos que se sucederam. Da mesma forma, a omissão sobre o protagonismo de mulheres negras ao longo da história do Brasil se reproduz no tocante a história oficial do feminismo brasileiro.

Ao voltar o olhar para o feminismo brasileiro percebemos as profundas desigualdades que se reproduzem em suas contradições internas, principalmente quando visto a partir da dimensão racial, ao desconhecer e desconsiderar o duro processo de aprendizagem em busca da construção da identidade da mulher negra. É necessário, portanto, avançar diante destas e outras contradições específicas através de um denso questionamento da lógica estrutural da sociedade, onde estará presente o racismo.

É neste sentido que buscamos reescrever nossa história, para que possamos nos reconhecer como sujeitos em nosso próprio discurso e, assim, fortalecer os laços de nossa identidade através da organização coletiva. Pouco sabemos sobre a vida da Preta “Tia Simoa”, que de forma quase que despercebida passa as vistas dos historiadores, constando apenas um minúsculo relato sobre sua participação na Greve dos Jangadeiros de janeiro de 1881 (GIRÂO, 1984, p.104), o que demonstra a dívida histórica deste país para conosco.

Contudo, Simoa representa para nós uma visão alternativa de mundo ao mesmo tempo em que propõe para tod@s novas discussões acerca das estruturas sociais tradicionais, nos permitindo a reconfiguração de uma realidade social. Em nome dela, saudamos a todas as negras invisíveis na história e nos fortalecemos no eco de suas vozes silenciadas para dizer que aqui estamos e que daqui, do Ceará, falamos em inúmeras primeiras pessoas e dizemos que ainda há muito que se contar. Nossa história apenas começou!

RACISMO: PROBLEMA DE QUEM?

O racismo deve ser reconhecido como uma construção sociológica, uma categoria social de dominação e de exclusão. Neste sentido, o debate em torno da superação do racismo no Brasil deve envolver tanto o Estado quanto a sociedade em geral, já que trata-se de um fato estrutural que produz desigualdades e hierarquias sociais determinados pela estrutura da sociedade e pelas relações de poder que a conduzem. Significa dizer que o racismo nasce, se manifesta e se perpetua nas próprias Instituições do Estado, a exemplo das Instituições de ensino superior, como as Universidades brasileiras.
Racismo na Universidade Regional do Cariri

Racismo na Universidade Regional do Cariri

No ultimo dia treze do mês corrente a Universidade Regional do Cariri – URCA – presenciou mais um caso de racismo em suas dependências, quando um estudante do curso de história, Pedro Victor dos Santos (21), teve seu nome pichado no interior do banheiro masculino com referencias a sua cor de pele e em tom de ameaça de morte.

Pedro Victor é portador de uma doença crônica, um tipo de anemia que ocasiona convulsões e, segundo relato da própria vítima, ao encontrar a mensagem com seu nome teve três convulsões seguidas, tendo que ser levado com urgência ao hospital para sobreviver. Segundo ele mesmo nos diz, este caso foi uma reincidência, pois no inicio de 2013 ele havia recebido um telefonema com a mesma mensagem, que o deixou em pânico ao ouvir a frase “morre seu negro”, vindo a sofrer graves efeitos físicos por consequência. Agora está correndo o risco de abandonar o curso por ocasião dos efeitos provocados pelo racismo.

O combate ao racismo vai muito além do que simplesmente punir as práticas preconceituosas, pois exige reparação e conscientização, fatores essenciais para uma educação democrática que além de garantir o acesso tem a obrigação de garantir a permanência dos estudantes. Deste modo, alertamos quanto ao fato de que a Universidade Regional do Cariri não pode permanecer sendo relapsa em relação aos casos de racismo na Instituição, principalmente, para não ser conivente e não permitir que a Universidade se torne um espaço favorável às práticas racistas na forma como vem se desenhando. Para isso é necessário o desenvolvimento e comprometimento institucional com políticas diferenciadas que venham suprimir as injustiças existentes para garantir a igualdade nos tratamentos, nas oportunidades e nos resultados.

Exigimos o comprometimento institucional para o desenvolvimento de políticas diferenciadas que venham suprimir as injustiças existentes para garantir a igualdade nos tratamentos, nas oportunidades e nos resultados, com medidas como a reativação da Comissão de Direitos Humanos, a instauração de uma sindicância que investigue o fato ocorrido e a criação de uma comissão de amparo e apoio as vítimas de discriminação, garantindo assessoria jurídica e um acompanhamento psicológico à vítima.
O racismo não é um problema só da vítima e do feitor, mas da sociedade brasileira. A juventude negra tem direito a um futuro.

Pretas Simoa – Grupo de Mulheres Negras do Cariri

8 de Março: Tribunal de Rua

No último dia 8 de Março, data do Dia Internacional da Mulher, uma marcha foi realizada em Crato/CE. Movimentos feministas e de mulheres estiveram presentes no centro da cidade, assim como o Grupo de Mulheres Negras do Cariri – o PRETAS SIMOA – que realizou uma intervenção dentro da própria marcha de mulheres, objetivando denunciar a exclusão das mulheres negras nas pautas feministas hegemônicas.

Integrantes do PRETAS SIMOA foram amarradas em postes e árvores, em alusão e em memória de um cidadão negro, com transtornos mentais, que fora preso a um poste na mesma cidade. Para contextualizar as demandas das mulheres negras, estatísticas e dados relevantes foram colados aos corpos das ativistas, chamando atenção para a situação das pretas brasileiras, que lamentavelmente são parte das piores e mais revoltantes estatísticas de exclusão e violação de direitos do nosso país.

Enquanto a marcha de mulheres passava e via as PRETAS SIMOA amarradas e amordaçadas, a integrante Jarid Arraes fez uma fala, no carro de som da marcha, apresentando a razão da intervenção e explicando as estatísticas.

Após a passagem da marcha, as ativistas voltaram à praça de concentração e novamente foram presas aos troncos e monumentos locais. Quando a marcha de mulheres retornou, se deparou com a intervenção. As mulheres da marcha colocaram cartazes e faixas no centro da praça, em frente a militante Karla “AgreSilva” Alves, que se encontrava presa ao obelisco principal.

Karla posteriormente se soltou, e empunhando um megafone declarou palavras de ordem e protesto diante do racismo dos movimentos de mulheres do Cariri e do Brasil, exigindo que as feministas brancas se deslocassem de seus locais de conforto para ouvir e atender as demandas das mulheres negras. Karla usou termos como “sinhá” para gerar desconforto e tornar explícito o privilégio da branquitude feminina.

Após Karla, as ativistas Dayze Vidal e Elandia Duarte também fizeram suas falas, provocando a necessidade de se enegrecer as lutas de mulheres, entre palavras de confronto e de combate ao machismo.

Para ver todas as fotos da intervenção, clique aqui e visite nosso álbum em nossa página do Facebook. Fotos por Jarid Arraes.

DA SENZALA PARA O CARTÃO POSTAL: minha carne não é do SEU carnaval.

Atualmente um fato específico causou grande polemica no que se refere à contribuição da mídia brasileira para manutenção e reforço da erotização da mulher negra, que foi o concurso para eleição da “Globeleza”, onde se inicia a “caça as mulatas” para representar a propaganda de uma das maiores festas do país, o carnaval. Esta é a única vez onde a beleza da mulher negra, reduzida a região inferior traseira, ganha vez na televisão para anunciar o produto bom, bundudo e barato ofertado para o entretenimento dos foliões estrangeiros que movimentam a economia turística do país. No resto do ano, sabemos bem o espaço que a televisão brasileira nos reserva: a cozinha ou a prisão.

Nós, mulheres negras, lutamos com livros, unhas e dentes buscando escrever nossa história para além da relação sexual com seu senhor, buscando superar o titulo de “vadia” que nos tatuaram a pele e que nos apresenta como objeto legitimador da escravidão atenuada.

Convivemos cotidianamente com diversos tipos de violência associados a esta imagem mercantilizada do nosso corpo, patrocinada e propagada pela mídia brasileira. Esta violência é de ordem moral, uma vez que a nós difama e fere nossa honra e reputação; é física ao por em risco a integridade de nosso corpo, já que somos tidas como “disponíveis”; e também psicológica, por implicar diretamente na percepção que temos de nós mesmas e interferir no nosso comportamento afetivo e sexual que se ampara nessa cruel identidade hipersexualizada em que somos vistas e que muitas vezes acaba implicando no reflexo que vemos no espelho.

Tirem seus rótulos do meu corpo negro!

Pretas Simoa: Grupo de Mulheres Negras do Cariri Cearense.

Fotos: Lino Fly Kariri

A mulher negra do Cariri permanece esquecida – por Jarid Arraes

Embora o movimento negro e o feminismo estejam se tornando cada vez mais abrangentes, várias pessoas ainda são excluídas dos espaços de luta política. É o que acontece com as mulheres negras, especialmente aquelas que são pobres e nordestinas, que sofrem enorme preconceito e ainda são marginalizadas, mesmo dentro dos movimentos sociais. A invisibilidade fica aparente com a quantidade de mulheres do sul e sudeste do país, que aparecem para dar palestras e seminários a respeito dos mais diversos assuntos, enquanto as mulheres negras do interior do Nordeste são raramente cogitadas para participar de debates, mesmo quando o tema principal é sobre elas mesmas.

Esse problema não é uma exclusividade do Estado ou de entidades que promovem ações de conscientização, mas também uma falha proeminente dos movimentos sociais em si. O movimento negro e o feminista acabam priorizando as pessoas sudestinas, o que monopoliza o discurso, de modo que as ações políticas desses grupos não englobam a realidade de todas as mulheres negras. Muitas das vivências e demandas políticas das mulheres negras nordestinas são soterradas e acabam esquecidas sem jamais serem contempladas.

Ser mulher negra em uma cidade como São Paulo certamente não é a mesma coisa que ser mulher negra no Cariri. Cada Estado ou região geográfica possui seu próprio conjunto de características e especificidades culturais. Não é possível construir um molde universal para todas as mulheres negras brasileiras: a diversidade do Brasil é imensa e se for considerada a discriminação já sofrida por pessoas nordestinas – especialmente aquelas de cidades interioranas ou áreas rurais -, revela-se uma realidade extremamente preocupante.

O interior do nordeste tem uma longa história de seca e religiosidade. A possibilidade de equiparidade entre as mulheres se torna impossível sem que seja considerada a realidade da mulher negra católica que mora com vários filhos em uma casa de taipa no meio do sertão. E a realidade urbana da mulher negra no Nordeste, especificamente no Ceará, é muito mais peculiar do que a imagem estereotípica do nordestino.

O Cariri é uma região onde a miscigenação é hegemônica e o embraquecimento da população é extremamente recorrente. Não se fala em negritude, pois a mesma é compreendida como um fenômeno externo: as pessoas negras que vivem no Cariri e se reconhecem como tais são geralmente vistas como provenientes de outros estados brasileiros. O povo caririense falha em se reconhecer como negro, de modo que termos como “moreno”, “moreno escuro” ou “moreno claro” acabaram se popularizando e tornaram-se um axioma local.

Essa face embraquecedora da miscigenação caririense é bastante evidente. Durante a realização do Censo 2010, foram entrevistadas no centro da cidade famílias inteiras de pessoas negras que não se reconheciam como tais. É difícil encarar essa realidade quando há uma associação tão grande entre negritude e pobreza, uma vez que a maioria massiva das pessoas vivendo em situação de rua são negras. A identidade negra subjetiva e cultural é simplesmente esquecida.

A religiosidade católica e os valores tradicionais do patriarcado estão extremamente enraizados na história e cultura carirense e a realidade da mulher negra no interior do Ceará é fortemente influenciada por esses fatores. Expor o próprio cabelo crespo natural, por exemplo, é um ato praticado apenas pelas mais ousadas. A possibilidade de resgate das religiões de matriz africana é pesarosa: todas as escolas municipais possuem imagens de santos católicos e, em muitas delas, a discriminação contra crianças de famílias candomblecistas é frequente. Além disso, as estatísticas de violência revelam que mulheres negras e pobres são as maiores vítimas de feminicídios no interior do Ceará.

Apesar do peso da situação, as capitais e outras regiões do Brasil voltam pouquíssima atenção para essa realidade. Não há espaços para que sejam feitos discursos ou debates, tampouco há interesse acadêmico em compreender as nuances culturais do Cariri ou para que o interior do Ceará se torne um campo de pesquisa. A grande massa dos discursos de intersecionalidade dos movimentos sociais não conseguem abarcar a situação da mulher negra caririense. Ser mulher nessa região, ou ainda ser negra, pobre ou parte da sigla LGBT, acarreta uma realidade distante das teorias acadêmicas, de forma que ninguém do sudeste seria capaz de representá-la. A mulher negra caririense é a única que conhece seu contexto de vida e é ela quem deve colocá-lo diante das demais companheiras de luta.

Até mesmo eventos como a Marcha das Vadias – que são realizadas em todo o país, incluindo as que acontecem no Cariri – não dão conta de representar todas as nuances: há incontáveis mulheres que lidam com uma rotina de misoginia e simplesmente não se sentem empoderadas aderindo ao rótulo de “vadias”, não importa o quanto essa ressignificação seja libertadora para outras. A depender da localidade e da cor da mulher chamada de “vadia”, a palavra funciona como um castigo, uma barreira social potencializadora do quadro já agudo de exclusão e violência.

As mulheres nordestinas, do interior, dos quilombos e comunidades sertajenas, também precisam ser lembradas e contempladas. É necessário atenção e receptividade para escutar as demandas das cearenses e promover uma inclusão verdadeira, que naturaliza a sua presença ao invés de contá-la como exceção. Essas mulheres precisam de muito mais do que um texto em um blog na internet; elas precisam de reconhecimento, dignidade e oportunidades para que possam ser inseridas socialmente.