Negro amor

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É no meu corpo que escreves os melhores poemas de libertação
O meu gemido, o meu gozo são teus escritos marcando na minha pele nua e crua
Um resgate de nossa história.
É a narrativa que eu quero eternizar
Teu corpo negro dando forma e vida
aos meus contos -poemas de tesão e amor
Dávila Feitosa
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KARLINHA DE TAL

Fulana de Tal não tem sobrenome, família, herança ou esperança. Deserdada. Desmedida. Desterritorializada. Desempregada. Desnorteada. Desgraçada. Destruída. E por isso, Destemida. Não se pode temer perder o que não se tem. E Fulana de Tal não tinha nem mesmo a si mesma. O resto do mundo se sabia dono dela, de toda ela: seus órgãos, seus poros, seus pensamentos, seus sentimentos… Toda ela gerava lucros aos Herdeiros Territorialistas Medidores Empregados e Agraciados pelo azul geográfico do topo ao Norte: topo da pirâmide social, ao norte da cruz esterilizante e bem sucedida que promove guerras para obter mais e mais lucros.

– Tenha calma, minha irmã/meu irmão de cor…

Fulana de Tal pensou em escrever nos muros se escrever soubesse…

– Serei eu uma Gota Serena de veneno camaLeoa que atravessa os olhos dessa gente tola. Caminho entre pétalas com pedras nas mãos, navalha na língua e serrote nos dentes, falando abertaMente pra esses dementes que ainda calculo a dívida que deles irei cobrar, e meu breve silêncio é pra fazer pensar que durmo à tranquila espera do dia raiar. Não senhor! Meu pensamento arquiteto imoral não cessa em pensar o plural do Amor que cultivo nos meus: são sementes combativas do mal germinadas no breu, e seus frutos carregam no sumo uma Gota Serena camaLeoa que assim como os grafites nos muros transmitem disfarçadamente a proliferação de nosso poder.

Fulana de Tal debulhava assim seu dizer ao público de Bestas Letradas e asas cortadas que gastavam sua atenção procurando milho pra comer no chão. Os outros, Nortistas Azuis residentes no topo predial, imunes ao cocorocar filosofal dos fedorentos ocupantes dos porões da pirâmide, continuavam observando em suas lunetas cristalinas (pois conservadas em antigas histórias cristalizadas) qual a próxima De Tal usurpariam, desonestamente, covardemente, para por o rótulo da “ciência” e lucrar para captar novas correntes métricas que haverão de garantir aos seus puros-albinos herdeiros familiares muitas graças para agraciá-los, empregos onde serão patrões e terras que sobram de nossas mentes acorrentadas em gaiolas de MEDO.

KARLINHA DE TAL

AMOR PRETO CIRCULAR

 

por Jéssyca Diniz

DESCANSAR a cabeça num peito PRETO…
Descansar o sorriso num BEIJO preto…
Descansar o abraço num ABRAÇO preto…
Do amor, do AMOR, pois ele chegou!!!

Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Que chegou, me saudou, e me RESPEITOU…

Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Me saudou, minha mão beijou, e me ACALENTOU…

Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Ele veio nas ondas de um mar tranquilo…
Me saudou, minha mão beijou e me TRANSBORDOU…

Essa é a história do AMOR DE PRETOS…
Essa é a história do AMOR DE PRETOS…
Que LUTOU, SE TRANSFORMOU E PRA SI VOLTOU…

…OURO PRETO CIRCULAR… 🖤

Como é boa e tranquila a sensação de voltar a perceber que ainda sei escrever, que ainda sei me escreviver… Que ainda posso escrever… E mais ainda, que consigo e vou conseguir compartilhar… Tudo dará certo… Força, aponta para fé e rema…

25 de julho dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e de Tereza de Benguela

Em comemoração ao dia Internacional da Mulher Negra Latino Americano e Caribenha e de Tereza de Benguela o Grupo de Mulheres Negras do Cariri Cearense – Pretas Simoa visando a urgência e necessidade de discutir as questões que afligem as Mulheres Negras das mais diversas formas e circunstâncias propôs a realização do evento Mulher Negra X Agressividade que buscou ser um espaço de discussão e reflexão crítica sobre diversas experiências que tendem combater o racismo, sexismo e violências correlatas, em especial no que se trata as Mulheres Negras.

O evento trouxe:

  •  Exibição do filme “For Colored Girl” seguido de debate
  • Fala Preta: Mulher Negra X Agressividade;
  • Carolinas e outras Marias: oficina de amor Femini-na-mente-negra;
  • Mulher Negra no Hip Hop: Bgirl Daiany e Bgirl Vanessa;
  • Sarau das Pretas

Fotos: Ricardo Alves

ALEGORIA DO CATIVEIRO

Por Karla Alves

A “pretinha” de casa eu gostava de ser
Mimos, carinhos, dava até gosto de ver
De repente almas penadas
Na TV e nas escolas projetadas
Me fizeram a cabeça
E me gritaram “obedeça”!
Alisei cabelo
Tive vergonha do espelho
No cativeiro mental era tudo tão claro
Que de tanta dificuldade pra ver tive que ir pelo faro
Beirei a porta já um pouco torta de tanto me curvar
Mirei Dandara, Mahin, Simoa, Zumbi
Um monte de gente Preta, alarmada, eu vi
Escureci minha visão
Com Lima Barreto, Beatriz e Conceição
Considerei alto o precipício
Mas me lancei na escuridão
Cativeiro nunca mais!
Não me ofereçam pombo da paz
Que nas esquinas é que o despacho se faz
Mas sabe como é que é encruzilhada…
Te leva pro horizonte ou pra uma cilada
Então segui, mas fui cabreiro
Me liguei de cara que ali era o antigo cativeiro
Com aquelas vaidosas e estúpidas almas penadas
Todas alvas, ilustradas
Ensinando obediência
Ao povo preto que pedia clemência
Daí gritei: ei mano, sai dessa letargia!
Os mano disseram: mas como, se aí é noite e aqui é dia?
É tudo engano, essa cena se repete – eu falava
Mas a luz de lá de dentro encandeava
No interior as almas porcas grunhiam em coro:
“louca, agressiva”, me acusando de imenso desaforo.
Pra se manter no poder
Eram habilidosas em confundir e esconder
Pela “verdade seduzida” conquistavam
Pegavam nossas próprias armas e contra os irmão preto usavam
Mas não esperavam por minha CORvicção
Bolei um plano e logo pus em ação
Voltei por cada esquina que passei
E pedaços de espelho do chão eu apanhei
Com eles construí um escudo
Retornei ao cativeiro me fingindo de mudo
As almas penadas logo me deram como morta
Aproveitei a distração e estendi o meu escudo na porta
Chamei os prisioneiros a seguirem minha voz
Mas é difícil se erguer tendo à sua frente um algoz
Gozando privilégio e discursando “irmandade”
Almas pálidas que os prisioneiros julgavam por divindade
Junto comigo muitos outros Pretos vieram ter
Lá de fora gritávamos: corre até o espelho pra se ver
As almas porcas bradavam
Obediência e submissão ordenavam
Mas os prisioneiros erguidos cobravam a verdade
Chorando as almas toscas apelaram pra piedade
Mas aí, barão, já era!
O choro é livre e eu sei que tu supera
Fica sabendo que Preto consciente é forte
Não teme à vida e nem sequer à morte
Não vem com apelo de moça frágil e demente
Pois no teu verbo o chicote ainda é evidente
Conheço tua ginga, melhor não me subestimar
“quem não pode com a mandinga não carrega o patuá”
Desobediência epistemológica e existencial
Essa é a nossa meta, esse é o meu ideal.