Me sinto sufocada
Presa dentro do meu próprio útero
Frio demais, escuro demais para (re)existir
Asas atrofiadas
Para uma mente em expansão
E se eu pudesse voltar
Para o instante da concepção
Não lutaria por ninguém
Pela liberdade de ninguém
Não antes de conseguir a minha própria
Mas de fato
Quem se importa?
São noites sem lua…
Meus assassinos nem me reconhecem mais
Descansam em paz
Enquanto o meu dia não amanhece

KARLA ALVES

Anúncios

MÃES NEGRAS

Enquanto espero
bebo, fumo, calo,
ouço, aplaudo, rio,
vejo, grito, cuspo,
e choro…
Enquanto espero
o tempo que já não há
recordo o que a memória arrasta
repito o já tantas vezes dito
no tempo que é passado
mas que insiste no infinito
e choro…
Enquanto espero
caixões carregam esperança
sonhos e certezas de mudança
aguardam a pele carimbada
na cova fria e cultivada
por pele preta que lá guarda
as tristes marcas do racismo
eu sinto a terra na boca
o oco no peito que não bate
vencido pela ordem que gesta o caos
em nome do progresso pálido
que cria a margem e a elimina:
eu penso, eu lembro, eu sinto muito
e choro…
Enquanto espero
me dizem “calma”…
mas as balas cobram urgência
e meu útero chora
mais um sangue derramado
mais um futuro passado
extinto e para sempre lembrado
é também meu o fruto decepado
que enterra seu destino
Enquanto espero.

KARLA ALVES

em 14 de maio de 2014

Genocida Sacramento

(À sta Maria de Araújo e aos irmaozin do Rosário (Barbalha) assassinados pelo Estado racista genocida)

Não existiu milagre sem sangue
Não existe memória sem interesse
Não existirá santa sem túmulo… Assim decretou o humano demasiado desumano…

Condenada à morte e ao esquecimento
Não terás filhos, afilhados nem fiéis
Não terás altar
Não te erguerão estátuas nem símbolos que de ti possam se orgulhar
Teu sangue em tua boca sufocará, lacrada junto as tuas palavras que jamais serão lembradas
Tua memória morrerá com teu útero seco e improdutivo, já que nenhum lucro a nós poderia gerar
Da santa ceia teu corpo indecifrável não poderá participar
Queimada seja tua pele tostada que te incriminou
E nem teus ossos restarão para adubo
Jamais serás pão; jamais serás vinho
Nós, mentes albinas, dotados da mais nobre clarividência
Munidos do poder por nós mesmos instituído e em nome de deus pelos homens aceito
Decretamos o teu mais completo abandono
Por tudo o que é mais sagrado
Por todos nós profanos
Estarás tu, Maria Araújo
Fêmea negra pobre e obscura
Para sempre enterrada nos esconderijos do nosso poder.

Assinado: A Igreja dos Santos Brancos de todos os dias.

Do lado de fora do castelo imperial os transeuntes frenéticos comentavam o veredito. Já era noite quando a beata Maria de Araújo foi levada acorrentada para seu calabouço senzarial secreto…entre badaladas de sino, glórias e aleluias… À margem do império de luz um grupo de jovens situados numa distante esquina, respeitando a distancia física estabelecida pela corte, debatiam sem “razão” ou esperança o trágico destino de sua Santa de fé e de cor:

– Ouvi dizer que o milagre só se repetiu na boca da santa…
– Fala baixo, seu idiota! Se te pegam chamando ela de santa a gente tá fudido…
– Tá bem…tá bem… mas ouvi dizer que a Ostia sangrava na boca Dela por diversas outras mãos… mas nunca em diversas outras bocas pela mesma branca mão…

Por descuido ou desaforo uma jovem impetuosa cuja pele se confundia à própria sombra indaga alardamente:

– A quem pertence o milagre, então? A quem patrocina a morte ou a quem sobrevive pra ressurreição?

Rápido como um Raio um Ku Klux Klan encapuzado surge do nada e arranca a garota do meio dos seus, como uma fruta podre que ameaça apodrecer as mentes sãs… Brutalmente o oficial episcopal arrasta a “agressiva” que se debatia até a fogueira, onde será queimada em punição junto à sua voz de munição… Ela esbravejava pragas e num só grito que mais parecia um trovão ela afirmou:

– O milagre é meu!

Entre soluços e desespero, amarrada no altar de chamas da consagração, a jovem de tez escura faz sua ultima oração:

– Santa Maria de Araújo, rogai por nós… Por nós, condenai-vos, óh digníssima Mãe. Eles sabem muito bem o que fazem…

Maria de Araújo era morta nesse instante em que a jovem negra, condenada como traficante, olhava em sua mão o kit droga com selo Raio especial pela primeira e ultima vez…

(Karlinha De Tal)

Real(eza)

Por Jéssyca Diniz

…Para ser uma Rainha não precisa apenas sentar no trono, é preciso saber governar, e as vezes governar precede de atos que nem sempre nos favorecem… Tiramos pedaços de nós mesmos para alimentar os nossos, sorrimos mesmo quando estamos esfaqueados por dentro… Ser Rainha as vezes nos faz abrir mão de nossos sonhos, mas não nos faz descrer no futuro, ser rainha é mais que glamour, é bem mais que coroa… é estar mesmo que com trapos e farrapos com a cabeça erguida… diante dos inimigos e em lágrimas perante os seus… Pois as vezes, nem todo choro é de tristeza, e nem toda lágrima é de dor… É não se preocupar com súditos, pois os seus e suas iguais sempre te reconhecerão…

 

Texto feito em prol da sanidade mental de todas as princesa e rainhas pretas que passaram, passam e que virão…

Ave Nossa Senhora Preta

 

Mãe da escuridão do Céu
Que estais entre nós na Terra
Como divindade sejas reconhecida
Seja Eu o Vosso reino
Ensina-me a reconhecer minhas virtudes
Que Eu aprenda com o Céu
Que Eu me transforme no MAr
Que Eu ensine Amor na Terra
A água sábia e benta de vaginas e tetas nos dai hoje
Me ajude a aprender com os meus próprios erros, com os de mais ninguém
Não me deixei cair em fálicas mãos de P* duro
Mas renovai meu brilho agora e depois do Além…

Ave Mar ia
Cheia de graça pela praça
Maria santíssima
Como puta sempre apontada
Enquanto passava
Sobrevoando como quem nada
Nadando no vento como quem voava
Calçada de Lua
Vestida de Sol
Subiu aos céus
Depois de apedrejada…
Morte e vida feminina
Para sempre repetida
Para sempre lembrada…
Amem

(Amadora De tal)